quarta-feira, 11 de março de 2009

Cara ou Coroa (Emília)

Siamesas, por Sabrina Sanfelice (auto-retrato)


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Quando nasceu, sua mãe demorou dois dias para dar-lhe um nome. Ficou entre Caterina e Giulia, mas escolheu Emília porque, na dúvida, fechou os olhos e pensou: “o primeiro deles que vier em minha mente será o nome de minha filha”. Como na TV de seu quarto passava o Sítio do Pica-Pau Amarelo, teve, por (auto)honra, que colocar o nome da menina de Emília quando ouviu Narizinho gritando para a boneca de pano e o nome que veio a mente não conseguiu ser nenhum dos outros dois.

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(Trecho do conto "Emília", do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice, Editora Patuá)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

A sentença (Dolores)

Homenagem a Oscar Wild, por Sabrina Sanfelice
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O que Lola mais gosta de fazer é ouvir pedaços de histórias das quais ela não conhece o começo e nunca fica sabendo do fim. No fim da noite, ao chegar em casa, ela escreve todos esses diálogos detalhadamente e, numa brincadeira quase infantil, junta pedaços de textos sem relação nenhuma, une vidas que nunca se encontraram, faz com que a amante de um senhor de 70 anos que bebe cachaça seja, apenas em sua imaginação, a estudante mais cobiçada da turma de Direito.

Seus textos não têm função nenhuma, não saem da cabeceira de sua cama, não são lidos por ninguém, mas são para ela como os familiares queridos que cuidou: pedaços da história de alguém que são saboreados como se fossem seus. Afinal, quem não tem vida, alimenta-se de quê? É só observar as pessoas que estão com tédio falando o dia todo dos outros e esquecendo que a vida está passando. Por isso, Lola não é diferente. Não pode ser considerada uma pobre coitada que não tem vida própria. Tem muita gente espalhada nesse mundo que acha que tem vida, enquanto não passa de alguém que ainda espera viver.
O melhor de ser assim é não precisar criar expectativas, não depender de um sim ou não, sucumbir por um olhar, beber para esquecer. É estar na platéia o tempo todo, sentir tudo o que é visto no palco e, ao ficar de pé e aplaudir, lembrar de que são todos atores e que aquela não é sua história, aqueles não são seus sentimentos. É apenas o fruto de sua imaginação interagindo com a idéia dos outros.

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(Trecho do conto "Dolores", do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice, Editora Patuá)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

(Um parêntese, por favor)

Parêntese, por Gisele Sanfelice
(Um parêntese, por favor)
Detesto mudar meus projetos iniciais. Mas, meus contos resolveram entrar de férias em janeiro para darem espaço a mudanças que estão acontecendo em minha vida. Confesso: não são poucas. Tanto que eu jamais usaria esse espaço com tanta intimidade para me expor. Quando disse para meu psiquiatra que tinha uma publicação de contos para não me expor ele disse: bem se vê que a maioria das pessoas que escrevem não se expõe. Sorte a sua ter esse privilégio. Eu, mero mortal, não consigo ser tão imparcial em minhas entrelinhas.

Na verdade, escritores são todos fingidos. Sentem a dor alheia, tem a memória maior que tudo que só perde para o ego que, vira e mexe está lá, refletido nas palavras. E, remexendo em meus escritos mais antigos, desde a adolescência, percebi como a emoção da própria vida me fez criar com a literatura uma fuga sem volta para o mundo dos sonhos onde tudo é possível, inclusive não me expor, publicando contos que um incontável número de pessoas pode ler.

Então, tive medo. A minha exposição é pequena perto da minha responsabilidade. Se eu descobri que não sou Deus, não sou super-herói, não tinha nem sequer consciência da minha própria vida destacada em entrelinhas e ainda por cima sofro do mesmo mal de todos os escritores, porque eu ainda escrevo? Eu posso falar alguma besteira, querer compartilhar algo que um ser humano use como base, como fórmula mágica. E meus personagens? Eu sou parte deles ou eles fazem parte da minha vida?

Minhas indagações só conseguem ser substituídas por detalhes sutis como alguém que chega para tomar um café e traz um pacote na mão.

- Querida, sabe o que tenho aqui?
- Não, nem imagino. O que é? Um presente pra mim?
- Não (risos). Um presente pra mim. É a primeira versão oficial do seu livro. Será publicado.

Minhas mãos trêmulas seguraram o pacote e fito o homem que, em instantes, anunciará a resposta de todas as minhas questões.

- Que cara é essa? Parabéns! Vamos tomar alguma coisa para comemorar. Brindemos com café mesmo, mas brindemos!
- Obrigada, Dear. Acredita que eu estava quase desistindo dessa publicação há minutos?
- Acredito. Sempre achei que você escrevia por impulso, como tudo em você.
- É mesmo? Pensou isso por algum motivo?
- Não, mas por um raciocínio lógico. As pessoas só fazem alguma coisa por impulso por dois motivos: ou porque não sabem o que estão fazendo ou porque tem certeza absoluta do que fazem. E você, cara mia, tem os dois motivos. Só não esclareceu ainda dentro de você que, ter toda essa sensibilidade não é uma questão de vaidade, mas de necessidade. O escritor não é aquele que chora conosco, ele não precisa saber quem chorou ou não ao ler suas palavras. Percebe como é algo necessário?
- Talvez.
- Pense. Por que você come? Por que dorme? Por necessidade. Mas, se alguém te dissesse que enquanto você come e dorme está ajudando alguém a resolver questões existenciais, você pararia de fazer isso por causa da responsabilidade?
- Não, não poderia, morreria.
- Pois é. Se todos os escritores pararem de escrever, a humanidade morre. Isso assusta um pouco. Mas, eles continuarão pensando que, se pararem de escrever, quem morre são eles mesmos. O piolho continua sugando o sangue da cabeça sem pensar nas conseqüências para sua própria existência se o dono da cuca morrer. Não importa se alguém vai ler o que você escreve, mas você precisa fazer isso.
- Mas, dessa forma eu me ausento de qualquer responsabilidade. Só estou sobrevivendo!
- Não falo que o ego dos escritores é uma coisa enorme? Que prepotência a sua em achar que algum dia você mudou a vida de alguém. Você só o lembrou sobre alguma possibilidade que ele já sabia. Melhor: uma possibilidade que você roubou de alguém ou de você mesma. Sua ladra de sentimentos!
- Acho que já consigo brindar mais tranqüila!
- Faz um favor pra mim antes de brindarmos? Autografa essa versão e me dá de presente?
- Claro!

“Dedico a primeira versão de meu livro ao homem que me ensinou a brindar. Que eu continue brindando minhas necessidades básicas para que, mesmo sem pão, eu nunca morra de fome e, por um mero acaso, preserve a humanidade”

domingo, 14 de dezembro de 2008

O sono do ébrio

Saudade do futuro, por Sabrina Sanfelice (2005)
Capitulo X
O sono do ébrio
Embriagado. Inebriado pela ausência da razão. Era assim que ele estava se sentindo ao folhear a segunda página de um livro em branco. As lágrimas escorriam pela face do sujeito moribundo ao contar, com emoção e perturbação, sua experiência com aquele que seria não só o objeto de estudo da vida de Ulisses, mas atualmente e para todo o sempre, sua razão de viver.
Antonio era um homem de cinqüenta e poucos anos aposentado por invalidez. Alguns diziam que tinha mal de Alzheimer, mas a enfermeira da Casa de Repouso jurava que era loucura pura. Dizia pausadamente cochichando: “no começo eu até pensei que era tudo fingimento, mas depois de anos eu tive a certeza de que ele não bate bem dos pinos”.
Ulisses tinha percorrido quilômetros até chegar naquele local no cafundó do Judas para conhecer a primeira pista verdadeira das muitas pelas quais seguiu nos últimos tempos e que poderia levá-lo a ter contato real com seu “livro”. Ele quase perdeu a vontade quando teve que dormir em redes, comer sentado no chão de barro, tomar água suja de poço numa caneca de alumínio usada por mais de cinco pessoas no mesmo dia.
Mas, a força que movia sua busca já não era mais a mesma que a conquistou no começo. De curiosidade e mistério, há tempos que aquilo tudo já tinha passado pelo âmbito do irracional, da fuga da única realidade que ele poderia usufruir, de tudo que ele tinha medo de deixar ou não tinha coragem suficiente para mudar para, finalmente, se tornar um assunto ligado ao ego. Quando se perde tudo, ainda existe um elemento fundamental para completar a total perda da essência e da dignidade, chamado orgulho.
“Não existe busca mais medíocre do que aquela que é manipulada pelo orgulho. O orgulho em vencer uma guerra faz com que sejamos indignos da vitória. Competir é para os fracos. Os fortes estão interessados em complementar, em acrescentar e, enquanto os competidores sangram em busca de um troféu invisível, o sábio está abaixado no ringue da vida, recolhendo todos os pertences e o sulco que de vida de todos aqueles meros mortais. A sabedoria não morre. Ela perambula pelo universo através de portas que só podem ser acessadas por caminhos não convencionais”.
Isso está escrito no livro, Antonio? Por que você ficou com essa parte em sua mente? Por favor, repita os detalhes desta composição para que eu consiga captar tudo aquilo que preciso para completar minha busca. Eu preciso encontrar esse livro e absorver, assim como você, conhecimentos que ainda não domino, mas que atormentam minha mente pedindo passagem.
Você ainda está bêbado, meu caro amigo. Não se pode beber da fonte do conhecimento quando manipulamos nossa consciência com entorpecentes.
Eu? Bêbado? Você está louco? Eu não coloquei uma gota sequer de álcool na boca. Estou tão sóbrio como uma criança de quatro anos.
Primeiro erro. Quem disse que uma criança de quatro anos tem a opção de estar sóbria? Elas não precisam entorpecer a mente porque a realidade que enxergam está longe de ser interpretada. Elas consomem e abusam de um elemento que perdemos e que, sem ele, não conseguimos chegar a lugar nenhum: a inocência. A inocência e a humildade andam de mãos dadas.
Bom, o que eu fiz foi somente usar uma metáfora. Usei a frase para tentar te dizer que estou sóbrio, só isso.
Segundo erro. Sobriedade e embriaguez não são antônimos. A moderação da sobriedade me enoja. Ela é tão nojenta quanto à moral que a criou. A embriaguez pode ser um estado de entorpecimento temporário, mas ainda sim é mais digna do que a sobriedade. Portanto, eu ainda achava você melhor bêbado. Espero que não tente me convencer de sua sobriedade e só volte aqui quando souber o que te trouxe até mim. Antes disso, serei para você como um livro com as páginas em branco:
“A frustração de ver as folhas em branco não será maior do que o desespero de ter que preenchê-las com suas próprias mãos, criando assim um livro no qual você é autor e personagem. Um livro com o qual temos que lidar com a culpa e a responsabilidade de ser quem somos dos dois lados, de todos os lados, de dentro e de fora, do racional e do irracional. Uma história na qual não existem ventríloquos, leis, moral ou imposição. Estamos escrevendo as páginas de nossas vidas, na qual a tinta que borra o papel é vermelha escarlate... e o ponto final é nosso último suspiro”.
Os olhos de Ulisses se encheram de lágrima porque, talvez ali, com aquele moribundo, num momento tão simples, com o cheiro fétido da cama de um lugar de ninguém, ele tenha começado a entender o que estava buscando.
Abra seus olhos Ulisses. Abra seus olhos, disse Antonio.
Estão abertos, caro amigo, mas minhas pupilas ainda não se acostumaram com a luz.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Maria Madalena

Desejo crucífero, por Sabrina Sanfelice

Em desespero ela fechou os olhos para não ver sua imagem refletida no espelho. As lágrimas que escorriam pela face pálida podiam ser confundidas com as gotas de chuva que caiam fora do carro, vistas do retrovisor lateral. A saliva, confundida com o momento do choro se tornou espessa e amarga, sensação que traduzia uma só palavra: arrependimento.

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Ela nem precisou de tanto esforço. Ao tocar na planta ainda úmida, notou que o papel que a identificava tinha sido confundido por seus olhos com a toalha branca da mesa. Na surpresa de ver a flor, Cláudia nem notou o bilhete embaixo. Levantou a rosa com pressa e, como todo bom pacto com o demônio, furou o dedo em seu maior espinho. A gota de sangue era o que faltava para selar de vez seu destino daquele dia.

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Ela evitava os olhos amendoados, enquanto ele apertava de leve sua cintura na intenção de confortá-la do frio. A tempestade aumentava e o casaco já não era suficiente. Cláudia estava desesperada para que seu anjo da guarda lhe mandasse reforços, mas a legião de seguidores do chifrudo brincavam de roda entre os dois. Atrás deles um único letreiro piscava vermelho e forte: hotel 24 horas. Era chegado o momento da última tentação do deserto.

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Seu cansaço e sua aparência derretida pela água lutavam contra seu senso moral, mas a perigosa frase “o que há de mal nisso”, ganhou a partida dando xeque-mate na mente rigorosa da moça. O tempo, assim como a memória, pode parecer infinito quando se atenta aos detalhes da paixão. Na mente de Cláudia, ficaram os passos macios no carpete verde escuro da escadaria do hotel, que, em quatro pernas construíam o acorde de uma sinfonia deliciosamente amoral.

(Trecho do conto "Maria Madalena", do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice, Editora Patuá)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Verônica

Ponto de equilíbrio, por Sabrina Sanfelice

Com o corpo ainda quente em seu colo, Heloíse começou a recordar de Anna, a amante mais marcante de seu pai. A cena, vista pelo vão da porta do quarto, parecia uma dança dos corpos. Um homem com volúpia de paixão entrelaçava o corpo farto de uma garota que, apesar da pouca idade, esforçava-se para mostrar seus encantos através dos atos.

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Os olhos dela secaram. Já não se notava mais o brilho das pupilas que, radiantes, abriam com a chegada de um sorriso. Debaixo das olheiras de cansaço, estava uma expressão medíocre de definhamento. A diferença entre um ser humano morto e um ser humano limitado de seus maiores dons é somente a alteração das pupilas. Quando morremos biologicamente, somos dominados pela escuridão visual. Quando morremos por não sabermos fazer nossas escolhas e sucumbimos ao egoísmo alheio, somos dominados pela clareza do medo.

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(Trecho do conto "Verônica", do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice, Editora Patuá)

domingo, 12 de outubro de 2008

Aos sete

O balanço do tempo, por Sabrina Sanfelice

Capítulo VII
Aos sete
Acordei com um incômodo nas costas e gosto de bala na boca. A cena que completava o ambiente era drástica: pequeninos pés vestidos com meias brancas e sapatos de verniz preto dividiam o horizonte com a tábua de um balanço de madeira, ainda úmido pelo orvalho da manhã. Eu tinha apenas sete anos quando me perdi para sempre do mundo real.
Entre a terra e as folhas secas do meu lugar preferido dos fins de tarde, adormeci sozinho. Nem os gritos de minha ama de leite conseguiram me tirar do entusiasmo de estar sem banho, comendo doces e escondido nos jardins de minha vizinha há horas. Era lá que eu fugia da realidade e criava um universo possível o qual sinto saudade até hoje.
O gosto amargo da nostalgia só vem tempos depois que a lembrança aparece e, em seu lugar, nos deparamos com a impossibilidade da volta. Naquele exato dia em que minha mãe saiu para colocar uma carta no correio, eu fui atropelado por um sono profundo, quase mortal e um tanto estranho se analisarmos a fundo a história verdadeira, contada por meus ancestrais ainda vivos. Dizem que memória de criança é algo fantasioso, mas nesse caso a minha é apenas um fragmento de todo o fato comprovado pelas mentes mais sãs de minha família.
Contam que me procuraram por semanas e só me encontraram voltando com os sapatinhos na mão exatamente um mês depois de darem conta de meu sumiço. Carolina, minha irmã mais velha dizia ter visto os ciganos me levarem como filho postiço. Juca, meu amigo inseparável dizia que eu tinha ido para a constelação Ursa Maior, a qual fazíamos contato desde os quatro anos. Dona Ermelinda jurava que os homens do circo levavam crianças todas as vezes que passavam por alguma cidade nova.
Meu pai, sensato homem de bem, sabia que não poderia haver explicação plausível em nenhuma dessas alternativas, já que eu tinha voltado por vontade própria para casa. O caseiro meio-índio e grande amigo, Francisco, com pena das surras que eu levei até que algo de real saísse de minha boca, afirmava que nas matas ali perto havia um cipó nativo que fazia qualquer homem perder a noção de espaço e memória quando pisoteado sem querer.
Mas meu pai não queria saber de lendas. Ele queria era descontar em mim toda a tristeza da morte de minha mãe. Por algum motivo ele me culpava pelo acontecido, ou melhor, tinha certeza de que meu sumiço estava diretamente ligado a morte dela. Não existem coincidências Ulisses! Ela saiu para ir ao Correio ao mesmo tempo em que você saiu para brincar e, no outro dia eu tenho uma mulher morta e um filho desaparecido. Tenho certeza de que você não quer me contar alguma coisa!
Eu sempre soube do caso de minha mãe com o homem de olhos azuis e até mesmo sabia que a carta era para ele, mas não poderia imaginar o que teria acontecido naquele dia para que ela, mesmo com toda a agonia guardada no peito, cometesse suicídio. Lembro de ter saído para brincar no balanço do jardim e adormecido sem querer. Não conseguia entender nem ao menos que, nessa lacuna do tempo, minha mãe havia morrido, meus pés crescido e um mês decorrido sem que minha mente tivesse consciência disso tudo.
Culpado! Culpado! Culpado! Essas eram as vozes que eu ouvia quando olhava todos os membros de minha família enquanto o carro que me levaria ao internato saia da fazenda. Não me deram nada para que eu lembrasse dela no tempo em que estivesse por lá. Não me visitaram sequer uma vez até que os estudos terminassem e nem ao menos as férias ou Natal eu pude passar com alguém do meu próprio sangue.
Nada disso importava para um menino de sete anos mais do que carregar a culpa da morte de sua mãe. Nada, até o dia em que uma carta envelhecida, quase apagada pelo tempo caiu em minhas mãos exatamente vinte anos após a morte de Dona Clara dos Anjos. Com os dedos trêmulos da ressaca da noite anterior, abri com lágrimas nos olhos a resposta que eu tanto busquei para dar ao meu pai.
Endereçada a minha mãe, com letra de quem tem na escrita sua fonte de vida, o conteúdo começava com a doce saudação “Bom dia, meu amor”.
As coisas por aqui estão exatamente como você deixou. As flores crescem, assim como a promessa de que, um dia, estaremos juntos. A única coisa que me incomoda é que não sei qual sua cor preferida para pintar as paredes de nossa sala de estudos. A sala na qual poderei terminar o seu sonho de me trazer chá na ponta dos pés para não atrapalhar o andamento do livro.
Clara. Gosto de escrever seu nome com todas as letras para que elas ressoem em minha mente como um fragmento do meu amor. Amor que carrego há anos como um bem precioso, ainda adormecido, mas no qual acredito com todo meu coração. Sentimento frutífero que pode ser descrito pela memória dos dias felizes, embora fracionados, que passamos juntos.
Ainda sou capaz de lembrar da areia branca cobrindo seus pés quando construímos juntos o maior bem de nossas vidas: Ulisses. Tenho certeza de que um dia você me deixará contar a ele essa história que o permite ter, diferente de todos seus irmãos, olhos da cor do mar.
Meu amor, ainda que não tenha o hábito de promessas, abro aqui um parêntese para prometer a você que o conteúdo de sua carta será totalmente ignorado. Não posso e nem quero conceber dentro de mim que você tenha permitido tal crueldade. Nunca imaginei que ao pedir insistentemente para que você contasse a verdade, pudesse selar seu destino com mãos de ferro.
Dessa vez, diferente de todas, viajo essa noite para te buscar.


Mas Ulisses, ainda não entendi porque sua mãe se matou, se é que ela realmente se matou, sem sequer ler a resposta.
Se você como terapeuta não concluiu a história, a única coisa que posso te dizer é o que suspeitei ao olhar nos olhos de minha mãe, ao me despedir na manhã que antecedeu sua morte. Dona Clara dos Anjos não sabia mentir.