segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Lançamento do meu livro de contos "Nós Vós Elas"



Queridos amigos e leitores do blog:

Compartilho minha alma com vocês...


A Editora Patuá e o Instituto Hilda Hilst (IHH) convidam a todos para o lançamento do livro "NósVósElas", contos de Sabrina Sanfelice.

O evento será realizado dia 30/10 (quinta-feira) a partir das 19h no Instituto Hilda Hilst - Rua João Caetano Monteiro, s/n - Pq. Xangrilá - Campinas/SP

A entrada para o evento é gratuita e o livro estará à venda por R$ 35,00 (ATENÇÃO: pagamento apenas em dinheiro ou cheque).

Com a performance teatral “Janelas para uma mulher”.

Direção e atuação: Juliana Calligaris | Orientação: Leticia Olivares | Texto de Juliana Calligaris baseado no original de Monalisa Vasconcelos

Com bebidinhas do Bar do Bico antes, durante e depois (cheque, dinheiro ou cartão de crédito).

O livro já está à venda em nosso catálogo. As compras pelo site podem ser parceladas em até 12x. Aproveite!


domingo, 17 de agosto de 2014

Boa noite, capitão

Lost photo, acervo pessoal, Sabrina Sanfelice

Meu bloco de notas é de um Encontro Nacional da Memória. Me dei conta, ao abri-lo, que guardei dentro alguns prospectos que me fizeram voltar ao tempo passado. E essas simples impressões constataram que eu não escrevia há muito tempo. Risquei uma palavra repetida nesse parágrafo para não empobrecer a história. A única que quase não conseguimos sinônimos quando estamos falando do que já foi. O tempo. Pronto. Escrevi de novo. É uma palavra que me persegue desde que comecei a pensar em abrir esse bendito bloco de papel. Achei, inclusive, que não estava reconhecendo meus dedos segurando a caneta para escrever. Deitado na cama com a pasta que guarda esses papéis velhos onde está preso o bloco de notas, apoiada nas coxas dobradas, a luminária do criado-mudo proporciona uma sombra dura em cima do texto. Dura como a falta de fé. Algo que atrapalha o reconhecimento da palavra antes que ela surja escrita. A sombra persegue o texto, ainda virgem, puro e não corrompido. Como a morte que assola um recém-nascido antes de abrir os olhos. Como o eco da própria voz ao falar no telefone nos impede de prestar atenção em qualquer coisa falada que não seja nossa própria fala. Viro a folha e, para isso, sou obrigado a destacá-la do bloco de notas. Faz um barulho alto para a hora que passa, já passou, discretamente, da uma da manhã. Novamente menciono o tempo. E mais uma vez digo, com todas as letras: é tarde, muito tarde. É essa ânsia que me assombra enquanto tateio o que passou. Uma espécie de falta de conduta com o que resta. Não há meios de tentar pensar em outra coisa. Não, não é arrependimento. É falta. O que persiste. E até Dali sabia quando era afetado pela existência linear temporal. O que persiste é o que lembramos. E minhas queixas são as mais simples e puras. Eu não me lembro. Me sobra um lapso. E eu bem tento encaixar prazer no presente que possa suprimir esse descontínuo que há em mim. Mas quando estou no auge de qualquer coisa que me conduz a uma experiência excitante e memorável, volto a pensar que logo ela desaparecerá como um sopro. Não porque não seja digna. Como aquele instante em que se apaga uma vela no candelabro antes de dormir. Na maioria das vezes, a fumaça, signo que nos indica que ali houve vida, se dissipa e me deixa. E agora, nesse instante não performático da escrita, nem ao menos tenho uma vela. A luz dura da luminária ligada na tomada me mostra que quanto mais as coisas se tornam efêmeras, mais eu mesmo me torno instantâneo. Um pedaço de cera escorrida na qual o pavio está curto. Eu não tenho tempo para a humanidade absorta em vida. E uma vida rápida para alguém como eu torna a existência insuportável. Agora, para mim, a história se resume num sopro contínuo de milhares de crianças que fazem, juntas, seu primeiro ano de vida. Mais de mil felicidades para serem vividas num único assoprar, excessivamente rápido e devastador, de velinhas coloridas que piscam e voltam a acender. Não sou velho, embora também não seja novo. Sou justamente onde o tempo parece parar e questionar a falta. Não há o que se fazer quando a vida nos pede satisfações de algo que não temos. Um lapso. Não tenho respostas ao que me falta. Minha justificativa é a mesma do ponteiro do relógio. Passo de um minuto a outro sem consciência exata do que houve nesse percurso. Me movo para frente e mesmo passando pelo mesmo ponto diversas vezes não me ocupo em saber onde estou. O meu estar depende de outros ponteiros, que me cobram a exatidão de meus passos. As horas são as mesmas e eu nem as reconheço como minhas. É um fardo pesado demais para um homem não poder ao menos escrever suas memórias. Abdicar-se do que lhe resta sem nem ter certeza de que isso é o resto de algo que o satisfaz. As palavras, nesse caso, são bálsamo seguro, mesmo aquelas que são contadas por mãos alheias. Essas principalmente. Às vezes, por piedade ou gentileza de quem me guarda em algo de atemporal. E enquanto ela escrever, a mão alheia que toca meu rosto nas noites de solidão, eu poderei apagar a luz instantânea do criado-mudo e adormecer como o personagem de uma história qualquer, sem quaisquer certezas ou memórias que já não me convêm mais ter.

Sabrina Sanfelice, num dia qualquer.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

"...se tens já o silêncio, o que é que tu esperas" (Vera)

O inesquecível, Sabrina Sanfelice, Buenos Aires, 2009

Quando passou pela porta, pensei: está morta. Em lágrimas, falava como as cores eram acinzentadas e como tinha perdido a visão. Era justamente o ponto da neutralidade que assustava. Era turva a pupila, um aleitamento que dava dó. E como era bonita, pensava baixinho ouvindo seus gemidinhos miúdos, tamanha era sua sensibilidade aos sons, único recurso que tentava completar o sentido perdido. Dizia o tempo todo: já estou acostumada, já estou acostumada. Referia-se, por certo, ao sofrimento de uma vida toda. Miseravelmente bonita. E eu fui ficando ruborizado, assim, sem o menor pudor, porque sabia que seria impossível que ela sentisse o tom de vermelho sangue que meu corpo lançava, com uma vontade cada vez maior de engolir toda aquela angústia deslumbrante. E mais do que isso, ela ficava mais atraente cada vez que, invertidamente, ouvia pormenores de minha pobreza de espírito, minha pequenez e, numa sensibilidade absurda, admirava-me como um Deus. Mas só podia estar morta. Estava o mais perto disso que eu já tinha visto em toda a minha vida (...).

(Trecho do conto "Vera", do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice, Editora Patuá)

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A surda

O melhor presente de aniversário, junho de 2014

Ouço nitidamente
Ninguém me chama
Apenas o impulso
Do pensamento longe
Infla-me o ego aflito
Não posso correr da dor
Ela está
Assim como estou
Em ti
Cobrindo-te de afeto
O vento, certeiro
Vem
Empurra-me
Num precipício
Um lado, eu
Do outro, também
Um peito farto
O seu aberto
Ferido eu,
Esquecido tu
Cadê o ego?
Deixo-me
Para ver-me mais
E já não te amo
Quem chama-me
Agora ouço
Completamente
O eco aflito
Do pensamento solto
O eu contido
Agora morto
E eu comigo
Escuto-me
Vivo

quarta-feira, 21 de maio de 2014

"Uma vontade formigante de conhecer todos os segredos..." (Imaculada)

Antman, Sabrina Sanfelice, 2009.

(...) Eram bustos de manequins que aguardavam uma peruca. Tinham olhos voltados para lugares diferentes e davam a impressão de que, quando ninguém estivesse olhando, virariam e começariam uma conversa sobre o que já tinha passado-lhes pelas cabeças, hoje empoeiradas. Potes de xampu espalhados, esmaltes secos, um lavatório e cheiros, muitos cheiros. Acetona com química de permanente. Creme rinse com cabelo queimado. E tinha dias em que os cheiros sumiam, misteriosamente. (...)

A menina, que tinha certeza da espontaneidade do fim e mais certeza ainda da inofensividade de suas histórias, não teve dúvidas sobre como seria o término de sua criação tão malsucedida, da dor que causara com uma simples imaginação fértil e as melhores intenções. Assim como Édipo, mesmo ciente que não poderia saber o que se passava, admitiu que as consequências de seus atos seriam sempre suas, de alguma forma. (...)

(Trecho do conto "Imaculada", do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice, Editora Patuá)

terça-feira, 15 de abril de 2014

Assim me pareceu

Preto no branco, Sabrina Sanfelice, Paraty/RJ

Nada tão acolhedor como tratar o público refletindo, no palco, sua própria face. Jean Baudrillard já defendia há muito tempo que vivemos numa era cujos símbolos têm mais peso e mais força do que a própria realidade. Os simulacros são sempre mais atraentes ao espectador do que o próprio objeto reproduzido. Se não acredita no que digo, fique à vontade para tirar suas próprias conclusões, afinal, longe de mim querer ser dona da verdade, ainda mais uma verdade tão questionável como a tratada na fantástica (na minha humilde opinião) representação da obra de Pirandello na peça “Assim é (se lhe parece)”, em cartaz no Sesc Vila Mariana, em São Paulo.

Ficamos tão à vontade para entrar na história que nos projetamos para uma das cadeiras que estão no palco e, automaticamente, escolhemos um lado, mesmo que ele seja questionado o tempo todo por nosso senso crítico, dizendo: no fundo, é só uma questão sobre a autenticidade do olhar humano, eu sei bem disso. Chega a ser uma ironia apontada para dentro. Ainda bem que não tenho nada a ver com isso! – respiramos aliviados. 

Em outros momentos, moralmente escolhemos o lado daquele que questiona, instiga, provoca, como se assim fôssemos, todos, justos e conscientes. Mas, vez ou outra, mesmo os mais politicamente corretos, projetam-se para o espelho do autor escrevendo a obra (inclusive os que nunca ouviram falar dele) e pensam (mesmo sem saber que pensam): será mesmo que lá no fundo ele não quis nos dizer sobre a verdade esfregando-nos na cara que a vida é, o tempo todo, uma escolha? Até mesmo a sua própria em escrever-nos sobre esse tema?

Me pus a pensar em que lado ficou Pirandello ao escrever esse belíssimo conto, porque, mesmo um filósofo instigador acaba por se apaixonar pela essência de alguma razão e projeta isso num viés inconsciente. Mesmo a mais autêntica obra sobre a verdade se autoquestiona nas entrelinhas. Ao apontar-nos, o próprio autor, por fim, se aponta e nos dá o bálsamo de entendermo-nos humanos, todos, indo para casa tranquilos de que desempenhamos bem o papel que nos é cabido: o de questionadores.

Uma reflexão altamente recomendada e, sem dúvidas, belíssima (sim, eu tenho certeza que vi beleza): http://www.assimeselheparece.com.br/