quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Maria Madalena

Desejo crucífero, por Sabrina Sanfelice

Em desespero ela fechou os olhos para não ver sua imagem refletida no espelho. As lágrimas que escorriam pela face pálida podiam ser confundidas com as gotas de chuva que caiam fora do carro, vistas do retrovisor lateral. A saliva, confundida com o momento do choro se tornou espessa e amarga, sensação que traduzia uma só palavra: arrependimento.

(...)

Ela nem precisou de tanto esforço. Ao tocar na planta ainda úmida, notou que o papel que a identificava tinha sido confundido por seus olhos com a toalha branca da mesa. Na surpresa de ver a flor, Cláudia nem notou o bilhete embaixo. Levantou a rosa com pressa e, como todo bom pacto com o demônio, furou o dedo em seu maior espinho. A gota de sangue era o que faltava para selar de vez seu destino daquele dia.

(...)

Ela evitava os olhos amendoados, enquanto ele apertava de leve sua cintura na intenção de confortá-la do frio. A tempestade aumentava e o casaco já não era suficiente. Cláudia estava desesperada para que seu anjo da guarda lhe mandasse reforços, mas a legião de seguidores do chifrudo brincavam de roda entre os dois. Atrás deles um único letreiro piscava vermelho e forte: hotel 24 horas. Era chegado o momento da última tentação do deserto.

(...) 

Seu cansaço e sua aparência derretida pela água lutavam contra seu senso moral, mas a perigosa frase “o que há de mal nisso”, ganhou a partida dando xeque-mate na mente rigorosa da moça. O tempo, assim como a memória, pode parecer infinito quando se atenta aos detalhes da paixão. Na mente de Cláudia, ficaram os passos macios no carpete verde escuro da escadaria do hotel, que, em quatro pernas construíam o acorde de uma sinfonia deliciosamente amoral.

(Trecho do conto "Maria Madalena", do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice, Editora Patuá)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Verônica

Ponto de equilíbrio, por Sabrina Sanfelice

Com o corpo ainda quente em seu colo, Heloíse começou a recordar de Anna, a amante mais marcante de seu pai. A cena, vista pelo vão da porta do quarto, parecia uma dança dos corpos. Um homem com volúpia de paixão entrelaçava o corpo farto de uma garota que, apesar da pouca idade, esforçava-se para mostrar seus encantos através dos atos.

(...)

Os olhos dela secaram. Já não se notava mais o brilho das pupilas que, radiantes, abriam com a chegada de um sorriso. Debaixo das olheiras de cansaço, estava uma expressão medíocre de definhamento. A diferença entre um ser humano morto e um ser humano limitado de seus maiores dons é somente a alteração das pupilas. Quando morremos biologicamente, somos dominados pela escuridão visual. Quando morremos por não sabermos fazer nossas escolhas e sucumbimos ao egoísmo alheio, somos dominados pela clareza do medo.

(...)

(Trecho do conto "Verônica", do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice, Editora Patuá)

domingo, 12 de outubro de 2008

Aos sete

O balanço do tempo, por Sabrina Sanfelice

Capítulo VII
Aos sete
Acordei com um incômodo nas costas e gosto de bala na boca. A cena que completava o ambiente era drástica: pequeninos pés vestidos com meias brancas e sapatos de verniz preto dividiam o horizonte com a tábua de um balanço de madeira, ainda úmido pelo orvalho da manhã. Eu tinha apenas sete anos quando me perdi para sempre do mundo real.
Entre a terra e as folhas secas do meu lugar preferido dos fins de tarde, adormeci sozinho. Nem os gritos de minha ama de leite conseguiram me tirar do entusiasmo de estar sem banho, comendo doces e escondido nos jardins de minha vizinha há horas. Era lá que eu fugia da realidade e criava um universo possível o qual sinto saudade até hoje.
O gosto amargo da nostalgia só vem tempos depois que a lembrança aparece e, em seu lugar, nos deparamos com a impossibilidade da volta. Naquele exato dia em que minha mãe saiu para colocar uma carta no correio, eu fui atropelado por um sono profundo, quase mortal e um tanto estranho se analisarmos a fundo a história verdadeira, contada por meus ancestrais ainda vivos. Dizem que memória de criança é algo fantasioso, mas nesse caso a minha é apenas um fragmento de todo o fato comprovado pelas mentes mais sãs de minha família.
Contam que me procuraram por semanas e só me encontraram voltando com os sapatinhos na mão exatamente um mês depois de darem conta de meu sumiço. Carolina, minha irmã mais velha dizia ter visto os ciganos me levarem como filho postiço. Juca, meu amigo inseparável dizia que eu tinha ido para a constelação Ursa Maior, a qual fazíamos contato desde os quatro anos. Dona Ermelinda jurava que os homens do circo levavam crianças todas as vezes que passavam por alguma cidade nova.
Meu pai, sensato homem de bem, sabia que não poderia haver explicação plausível em nenhuma dessas alternativas, já que eu tinha voltado por vontade própria para casa. O caseiro meio-índio e grande amigo, Francisco, com pena das surras que eu levei até que algo de real saísse de minha boca, afirmava que nas matas ali perto havia um cipó nativo que fazia qualquer homem perder a noção de espaço e memória quando pisoteado sem querer.
Mas meu pai não queria saber de lendas. Ele queria era descontar em mim toda a tristeza da morte de minha mãe. Por algum motivo ele me culpava pelo acontecido, ou melhor, tinha certeza de que meu sumiço estava diretamente ligado a morte dela. Não existem coincidências Ulisses! Ela saiu para ir ao Correio ao mesmo tempo em que você saiu para brincar e, no outro dia eu tenho uma mulher morta e um filho desaparecido. Tenho certeza de que você não quer me contar alguma coisa!
Eu sempre soube do caso de minha mãe com o homem de olhos azuis e até mesmo sabia que a carta era para ele, mas não poderia imaginar o que teria acontecido naquele dia para que ela, mesmo com toda a agonia guardada no peito, cometesse suicídio. Lembro de ter saído para brincar no balanço do jardim e adormecido sem querer. Não conseguia entender nem ao menos que, nessa lacuna do tempo, minha mãe havia morrido, meus pés crescido e um mês decorrido sem que minha mente tivesse consciência disso tudo.
Culpado! Culpado! Culpado! Essas eram as vozes que eu ouvia quando olhava todos os membros de minha família enquanto o carro que me levaria ao internato saia da fazenda. Não me deram nada para que eu lembrasse dela no tempo em que estivesse por lá. Não me visitaram sequer uma vez até que os estudos terminassem e nem ao menos as férias ou Natal eu pude passar com alguém do meu próprio sangue.
Nada disso importava para um menino de sete anos mais do que carregar a culpa da morte de sua mãe. Nada, até o dia em que uma carta envelhecida, quase apagada pelo tempo caiu em minhas mãos exatamente vinte anos após a morte de Dona Clara dos Anjos. Com os dedos trêmulos da ressaca da noite anterior, abri com lágrimas nos olhos a resposta que eu tanto busquei para dar ao meu pai.
Endereçada a minha mãe, com letra de quem tem na escrita sua fonte de vida, o conteúdo começava com a doce saudação “Bom dia, meu amor”.
As coisas por aqui estão exatamente como você deixou. As flores crescem, assim como a promessa de que, um dia, estaremos juntos. A única coisa que me incomoda é que não sei qual sua cor preferida para pintar as paredes de nossa sala de estudos. A sala na qual poderei terminar o seu sonho de me trazer chá na ponta dos pés para não atrapalhar o andamento do livro.
Clara. Gosto de escrever seu nome com todas as letras para que elas ressoem em minha mente como um fragmento do meu amor. Amor que carrego há anos como um bem precioso, ainda adormecido, mas no qual acredito com todo meu coração. Sentimento frutífero que pode ser descrito pela memória dos dias felizes, embora fracionados, que passamos juntos.
Ainda sou capaz de lembrar da areia branca cobrindo seus pés quando construímos juntos o maior bem de nossas vidas: Ulisses. Tenho certeza de que um dia você me deixará contar a ele essa história que o permite ter, diferente de todos seus irmãos, olhos da cor do mar.
Meu amor, ainda que não tenha o hábito de promessas, abro aqui um parêntese para prometer a você que o conteúdo de sua carta será totalmente ignorado. Não posso e nem quero conceber dentro de mim que você tenha permitido tal crueldade. Nunca imaginei que ao pedir insistentemente para que você contasse a verdade, pudesse selar seu destino com mãos de ferro.
Dessa vez, diferente de todas, viajo essa noite para te buscar.


Mas Ulisses, ainda não entendi porque sua mãe se matou, se é que ela realmente se matou, sem sequer ler a resposta.
Se você como terapeuta não concluiu a história, a única coisa que posso te dizer é o que suspeitei ao olhar nos olhos de minha mãe, ao me despedir na manhã que antecedeu sua morte. Dona Clara dos Anjos não sabia mentir.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Objeto de Desejo

"A espera", por Sergio Biscaldi (brother ship que comemora 3 anos de blog!)
Capítulo VI

Objeto de Desejo

Não podia mais esperar para voltar ao sebo e tocar os dedos no livro que tinha feito minha mente parar de raciocinar para experimentar o desequilíbrio, o caos, mas principalmente, o desejo.


Muitas vezes eu me acho e me perco como se esse movimento fosse algo nato em meu ser, como se a trajetória de mudança pudesse significar, em todos os sentidos, um leve empurrão do tempo que se move em acordes controlados para proporcionar aquilo que chamamos de "surpreendente".

Ao caminhar pela rua podia sentir a mesma cena se repetindo. O mesmo cheiro do café, a mesma salivação pelo primeiro gole, o golpe da memória que me dizia com todas as letras que eu era um viciado pelos pequenos prazeres de uma rotina na qual eu poderia ser ao mesmo tempo o autor e o personagem de meu próprio livro.

Entrei e, num ato impulsivo pela busca de meu anseio mais secreto, esqueci todo o resto para saborear a angústia de chegar à prateleira e tocar os dedos em meu mais novo “objeto de desejo”.

O corredor parecia um labirinto quando visto de longe. As garçonetes, na tentativa de serem gentis pelo meu tempo de clientela, se colocavam no caminho como se fossem peões num tabuleiro de xadrez. Eu, na minha fúria por derrubar todos os muros que me impediam de ver a luz, cheguei a ser grosseiro a ponto de falar “bom dia” ao mesmo tempo em que emendava a frase “não me traga café nem me ofereça nada que eu não peça”.

Meus pés quase não tocavam o chão quando fiz a curva que me levaria à prateleira-alvo. Mas, minha mente quase colapsou quando meus olhos mostraram uma figura estranha, jamais vista no local, no mesmo lugar onde meu tão sonhado objeto estava posto.

Procurei usar daqueles artifícios dos livros de auto-ajuda do tipo: “não seja tão pessimista, existem vários livros na mesma prateleira”. Mas, como não pensar em nada estranho depois dos últimos acontecimentos em minha vida? Fui forçado a contar com a possibilidade de tudo poder acontecer, até mesmo de, num ato de desespero, arrancar o livro das mãos daquela velha senhora.

Antes do último passo que eu daria em direção ao meu objeto de desejo, a voz dela, que mais lembrava a de minha mãe, deixou-se ressoar no ambiente.

Ulisses. É você?

Olhei bem seu perfil quase coberto por um livro e não a reconheci. Mas, num tom de educação afirmei que sim.

Chegou tarde demais. O que você procura não está mais aqui.

E como você sabe o que procuro? Por sinal, não te conheço. Quem é você?

Meu nome é... ou melhor, não preciso dizer meu nome. Isso não importa. O que importa é que você chegou tarde demais para quem procura alguma coisa.

Olha... me desculpe senhora, não quero ser rude, mas minha vida está tão confusa ultimamente que não sei se realmente quero começar uma conversa como essa, com tantos mistérios. Só quero pegar um livro e vou embora.

Você não querendo mistérios? Então para que quer um livro que nem o nome sabe? Não seria contraditório demais alguém querer algo que não sabe o que é e ao mesmo tempo fugir da palavra mistério?

Talvez. Mas o que eu quero não é o mistério. Eu só desejo ser surpreendido.

E você acredita que essa sensação esteja em outra coisa senão em você mesmo, meu filho?

Deixa eu te dizer uma coisa. Não são as pessoas ou as coisas que nos surpreendem. Somos nós mesmos, quando numa fração de segundos nos permitirmos mais "ser" do que "não ser", quando nos permitimos ver, sentir, cheirar, tocar, amar....

O ser humano é feito de muitos elementos e um deles é o vazio. Um espaço que precisa ser preenchido como páginas de um livro em branco. Como folhas de um caderno velho no qual só enxergamos borrões do tempo, em línguas que só aprenderemos a falar depois que soubermos quem verdadeiramente somos.
É como abrir um diário, numa data aleatória e perceber que nunca viveu aquilo porque as folhas se encontram numa dimensão futura que nos permite ter saudade de nós mesmos.

Estranho a senhora dizer isso tudo. Eu sinto como se te conhecesse, como se tudo isso fosse necessário, mas a minha ansiedade sonha pelo momento em que eu puder me aproximar do livro e por isso eu não quero ouvir mais nada. Por favor, me deixe sozinho.

Claro. As palavras e os pensamentos têm a força que controla todos os impulsos. Vou te deixar a vontade.

Só não esqueça, Ulisses, de que o desejo é a forma mais egoísta e cruel que nos foi imposta para que esqueçamos quem somos para querermos ser apenas um fragmento do que queremos “parecer”. O desejo nos dá a sensação momentânea de sermos divinos, enquanto ainda somos humanos.

Obrigado pelas palavras Lúcia. Mas, por hora, quero apenas satisfazer meu desejo.

Num impulso frenético que mal deixou com que a velha senhora se afastasse da prateleira, meus olhos se puseram a buscar pelo livro. Poeira, pedaços de etiquetas amassadas e cheiro de mofo se misturavam aos meus sentidos enquanto meus olhos buscavam pela descrição mental criada no passado.

Horas se passaram em vão sem que eu percebesse que não o encontraria. Afinal de contas, como aquela mulher sabia que o livro não estaria aqui? Como eu poderia ter ignorado as palavras dela sem que pedisse antes por alguma explicação? Quem era aquela mulher?

Numa retrospectiva rápida não me recordava de tê-la visto em nenhum outro momento. Mas, meu coração saltou a boca quando lembrei que há pouco tinha conversado com alguém que não conhecia, mas que sabia meu nome e que eu, sem perceber, tinha dito o dela com todas as letras: Lúcia.

Estou em desespero. Acho que morri e estou no inferno. Não é possível que, de uns tempos pra cá, minha vida tenha se tornado esse emaranhado de fios de cabelos dentro de um ralo sujo. Eu preciso de uma luz.

O senhor pediu uma luz? – disse a garçonete com um sorriso no rosto. Só ofereço porque o senhor mesmo disse que não era para oferecer nada sem que tivesse pedido, mas, como pediu, aqui está.

Teria eu pensado tão alto assim? Nossa, devo estar em devaneios.

Peguei o papel da mão da garota e caminhei até a porta de saída para ler na claridade. Papel cartão, letras minúsculas, marcas de carimbo, datas e finalmente reconheci: um cartão de empréstimo do próprio sebo.

Na última linha, o campo da data indicava 29 de junho de 2009. No lugar do nome do livro, um código apontava o número de tombo do exemplar e, no nome, em letra de mão “Lúcia Ashmey”. O próximo campo, que deveria ter a data da devolução, indicava que eu deveria ler uma observação atrás do cartão de empréstimo.

Virei.

“Código de procedimento 163: Único exemplar retirado pelo próprio autor. Motivo 177: Ordem cumprida para fins de proibição de veiculação de conteúdo. Retirada pública de circulação da obra”

Esperar pelo surpreendente é como chegar numa bifurcação. Você espera que o caminho escolhido te leve ao delírio, ao prazer, mas em nenhum lugar, nem mesmo nas letras pequenas no documento diz que a espera é seguida de prazer. O máximo que se pode ter é sorte. Do mais, que os desesperados se contentem com a decepção.

A expectativa é o desejo dos fracos.

sábado, 6 de setembro de 2008

Carta a Alberto

"Outono", por Sabrina Sanfelice
Capítulo V

Carta a Alberto


Era tarde da noite quando Ulisses resolveu escrever ao seu melhor amigo. Alberto era um homem sério, que usava bigode desde quando entrou na faculdade. A única coisa que o desmontava era falar de Maria Alice, a mulher com a qual sonhou ter filhos e formar uma família e que, no calar da madrugada, sumiu como uma ladra libertina levando com ela tudo o que Alberto tinha conseguido acumular durante esses anos todos: uma imagem, reputação e esperança.

Na gaveta da cômoda ele encontrou seu bloco de papéis especiais que usava para escrever com sua caneta tinteiro, herança do avô Edmundo, que lhe ensinou as primeiras letras. No armário, recolheu o resto das coisas necessárias para deixar a carta pronta para ser postada no dia seguinte, logo cedo. Sentado em sua escrivaninha preferida, fixou os olhos no papel e começou a pensar em como deveria contar os detalhes que estavam atormentando sua vida.

Ulisses era muito excêntrico e detalhista para simplesmente começar uma carta com a data do dia ou qualquer saudação estúpida. Ele sabia que se fizesse isso, iria provocar tanto medo em Alberto que o coitado sairia de outro estado para vir correndo ver o que estava acontecendo. Então, como falar de paranóias sem sobressaltar a própria normalidade humana? Incrível como as pessoas pensam que as anomalias estão escondidas atrás de rostos estranhos, misteriosos ou deformados enquanto a loucura, em sua esperteza, usa umas das máscaras mais conhecidas de todos nós: o habitual.

Molhou a caneta e levou-a devagar até o bloco. O tempo para que sua mente pensasse era o mesmo no qual a tinta não poderia pingar e manchar o papel. Ulisses sabia que esse vácuo entre o pensamento e o movimento da caneta era exatamente onde residiam seus mais misteriosos insights. No entanto, como se o tempo e o espaço já não fizessem mais diferença, os pensamentos se alinharam e as palavras começaram a ficar nítidas.

Outono. Mês das folhas secas. Ainda está quente, mas minha mente repousa num dia frio.

Caro Amigo,

É muito difícil olhar nos rostos que ficaram escondidos em nossa mente. Talvez pelo simples fato desse olhar estar ligado a uma imagem projetada no fundo daquilo que um dia conhecemos.

É tão mais fácil cantar e passar a vida sonhando...

É que já não durmo mais. E quando durmo, meus sonhos estão cercados por vultos que me apontam placas que indicam todos os lugares ao mesmo tempo. Como se no meio de um abraço e lembranças de odores mágicos, chegasse uma forte tempestade.

O presente nasce morto quando fingimos não viver mais. A indiferença segura pelas mãos lembranças de um dia nublado. As folhas secas se amontoam nos pés, mas preferimos olhar a luz da Lua.

E sigo frio até o amanhã tempestuoso, sobrevivendo ao que resta, angustiado. O vento gélido da inspiração e a ardência vermelha dos meus olhos demonstram a falta de controle e a sombra de alguém que agarra com os dentes cada detalhe que fazem do todo uma única desgraça.

Só sobrevivo ao medo, que sobe e desce, desanimado. Você, de carne e osso e uma espada. Com os olhos fundos de buraco, a boca cheia de sapos e a matéria crua, navalhada.

Dentro, uma simples luz que pisca de um lado para o outro. Um entra e sai que atordoa. Os olhos se fecham a cabeça se abaixa. Labirinto de prazeres, egoísmos e necessidades.

Numa ponta um desejo errado e na outra o mesmo descontrole. Na saída um letreiro vermelho pisca forte anunciando que ali está o final. E quando os corpos chegarem amortecidos, retalhados, estará escrito: tarde demais.

Onde estarão os filósofos, que já não andam mais pelas ruas de Atenas?

Quem és tu?
Que não me trazes explicação?
Não mudas o que sinto, mas afetas o que tenho?

(Apaga-se a luz e tudo se torna silencioso)

Minha alma está calma e ao mesmo tempo eufórica.

Escuta, escuta, escuta.
E percebo que não são os sentidos que determinam.
É aquilo que não vejo.
Aquilo que preciso, somente um pouco...
...caro amigo.

Porém, não existe limite para a busca daquilo que precisamos.

Ulisses

sábado, 23 de agosto de 2008

A sopa

"Reações", por Sabrina Sanfelice

Capítulo IV

A sopa

Já se passavam das sete da noite. A sopa de ervilha borbulhava na panela enquanto Ulisses terminava de ler o jornal. Em uma das crônicas do dia o jornalista apontava um incidente em uma cafeteria da cidade, alguma coisa sobre um roubo. Ele irremediavelmente ri. Ulisses quase sempre ri por um canto só da boca quando está sozinho. Fecha o jornal e vai ver a sopa, apaga o fogo, prepara a mesa e serve a sopa no prato fundo que recebeu de herança se sua tia-avó.

Senta calmamente no mesmo canto da mesa, de costas para a porta da cozinha. A sopa está quente e Ulisses revira e mistura o caldo para suportá-lo na boca. O cheiro de especiarias o faz lembrar o dia em que conheceu Cláudia. Na verdade, o pico olfativo o faz sentir repulsa e adoração ao mesmo tempo. É tão parecido com o sentimento que cultiva por ela, algo como “o perfeito que enjoa”, como cheiro de jasmim, especiarias e o perfume caro da secretária do dentista.

Cláudia estava sentada numa mesa perto da calçada tomando chá indiano. A bolsa pendurada na cadeira mostrava algumas folhas soltas com partituras musicais. A blusa cor de lavanda, rendada nas pontas, meias-finas e sapatos fechados. Ulisses queria mesmo era ver seus dedos, mas ela estava de costas, os cabelos parcialmente presos, castanhos. Ele abanou com as mãos tentando espantar abelhas invisíveis. Levantou, fez-se de irritado e o garçom, gentilmente, veio ao seu encontro.

Outra mesa Senhor?
Ulisses pensava que ele teria percebido sua intenção. Então, tentou intimidá-lo com um monte de argumentos como sua alergia por picadas de abelha e seu único momento de descanso merecido. Acabou por sentar-se numa mesa onde via seu perfil. Rosto suave, pálido, nariz fino e, finalmente, as mãos. Ela segurava a xícara de porcelana e os dedos longos adornavam a superfície do pires sobre a mesa. Quando descansava a xícara, ficava passando a ponta dos dedos na borda como se quisesse produzir um som daqueles feitos por taças de cristal puro.

Estava longe, pensativa. De vez em quando, os dedos sobre o pires imitavam posições nas teclas de um piano e ao mesmo tempo os pés, embaixo da mesa, pisavam em pedais invisíveis. Ela era como um livro de contos de fada, daqueles que quando alguém nos lê quando crianças, ficamos imaginando o que estará fazendo agora o personagem principal.

Ela olhou para o lado. Olhos cor de mel, numa expressão quase etérea. Fez sinal para o garçom e mostrou a xícara. Voltou os olhos para a mesa e sorriu. Ulisses retribuiu e perguntou as horas. Cláudia mostrou a cadeira que estava ao lado e sorriu de novo. Em passos lentos, quase atemporais, infinitos... ele andou até ela. Seus olhos achavam os dela e nadavam entre seus longos cílios postiços. O cheiro de canela ficava mais forte a cada segundo.

Ulisses fecha os olhos para lembrar melhor. Respira fundo e não sente nada. Abre os olhos e vê o prato de sopa na mesa. Vem devagar, trazendo a colher até a boca e sente: está fria. Muito fria, assim como sua memória através dos anos. A convivência é como a sopa que saiu da panela. Quanto mais tempo esperamos alienados, mais rápido esfriamos.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

O despertar

Foto: Sabrina Sanfelice (auto-retrato com os pés)


Capítulo III

O despertar

Me sentia um pouco sonolento quando escutava músicas clássicas forçado. Era como se alguém me embalasse ao som de canções de ninar. Mas eu estava lá para vê-la mais uma vez. Nunca mais com a mesma intensidade de antes, quando eu sentia a emoção de cada troca de compasso, mas eu não poderia ser tão insensível.

Com um terno apertado e meus óculos de leitura, sentei na primeira fila esperando que ela me olhasse nos olhos antes de começar. Era só esperar esse momento para que eu pudesse fechar meus salões internos e tentar raciocinar meus dias conturbados, minha ânsia de voltar a tocar aquele livro, o cheiro forte dos meus instintos de homem se manifestando no mesmo instante em que eu precisava voltar-me a introspecção absoluta. Que caos seria esse que me consumia por dentro e ao mesmo tempo me deixava leve como nos tempos de criança, quando eu não via a hora do próximo dia chegar e poder rever os rostos de meus primos distantes, que vinham só de vez em quando, mas que estavam bem ali, dormindo ao meu lado.

Ela me mirou com aquele olhar doce e suave, entrelaçando os dedos em sinal de que começaria a qualquer instante. Fitei seus olhos com um sorriso de aprovação que naturalmente dizia “você consegue!” e abaixei levemente a cabeça para que ela começasse a tocar sem demora. Essa espera, esse intervalo entre a minha liberdade de pensamento e a expectativa de Cláudia parecia o inferno, um lugar em que minha mente repousa sob o sentimento mais estranho de agonia pedindo encarecidamente para ser livre.

O som da primeira nota musical deveria parecer um gozo, mas se tornou tortura quando comecei a ficar enjoado a ponto de precisar sair correndo para ir ao banheiro vomitar. Era como se a música me fizesse prisioneiro dessa agonia inquietante de não conseguir agir. Lavei o rosto várias vezes me olhando no espelho e morrendo de remorso, vergonha, desespero puro. Mas o momento era oportuno para uma fuga justificada, uma doença inventada as pressas para correr atrás de meu sonho lúcido. Minha mente alternava entre voltar a platéia e não me encher de arrependimento e correr sem parar, sem rumo, até cansar e conseguir ter idéia da minha primeira busca. Não podia mais adiar e ela não pararia de tocar, nem hoje, nem nunca, a música que já não embala mais meu coração, a música que me atira para longe, que me mata aos poucos, de tédio.

Tirei o paletó devagar enquanto minha pulsação aumentava aos poucos nas veias, quase igual cólica intestinal nervosa. Desatei o nó da gravata e espatifei os cabelos com as mãos. Pensei em começar a correr dali mesmo, mas tive a súbita vontade de tomar qualquer coisa forte antes, um conhaque, uísque ou qualquer coisa que me fizesse sentir o sangue esquentar. Passei no bar com cara de quem já estava bêbado e pedi com toda coragem o que tinha de mais forte. Nunca tinha feito algo parecido. Virei a bebida sem perguntar o que era.

Sem mais esperar por qualquer coisa que pudesse me barrar, saí correndo num impulso rápido, passando por todas as escadarias do Teatro, como se eu pudesse flutuar pelo tempo, sem que meus pés estivessem tocando o chão. Era como se cada vez mais as solas de meus sapatos estivessem pisando mais alto nos ares daquele espaço, ao mesmo tempo em que a velocidade diminuia para que a gravidade pudesse me fazer subir, subir...

Acabei saindo pelo arco da porta da frente, quase nú, já há uns três metros do chão, só de meias, cuecas e a gravata que insistia em cobrir parte de meus olhos. Do alto apreciava a vista da praça central que parecia um cartão postal de banca de jornal. Minha respiração ia e vinha, calma e constante, como se eu estivesse em sono profundo. Pensei bem forte na paisagem da minha terra natal, um lugar onde eu gostaria de passar voando, onde admirava os balões de São João que subiam alto e lá de cima poderiam contemplar os montes que eu demorava horas para subir a pé. Uma sensação de clareza absurda envolveu meu ser, como muitos descrevem a passagem da morte para a vida etérea, rodopiando no ar como fogos de artifícios que sobem e descem, acendem num auge e apagam lentamente deixando saudade...

Fiquei suspenso por algumas horas, quase em estado catatônico, passei entre várias fases da minha vida, dos pés de limão a primeira transa, dos olhos de minha mãe lacrimejando em frente ao televisor antes de ir para cama ao cheiro de chuva e tijolo velho de construção quando rabisca o chão num dia de sol. Eu estava pleno, inteiro, dividido em fractais que se juntam aos poucos formando um desenho plano e chapado do meu próprio rosto estampado numa folha de papel, desenhado por uma criança canhota e giz de cera. Eu era plasmático, eu estava feliz pela primeira vez em minha vida, como nunca tinha estado em nenhuma situação sóbria e material. Eu era aquilo que alguns chamam de espírito, outros de alma, essência, não-material, etéreo, energia, luz, nada. Eu era um tolo e nada melhor do que ser um tolo.

Fui agarrado pelo braço com tanta força que meus olhos saltaram pela face estreita.
Acorda Ulisses! Pelo amor de Deus, acorda! Você desmaiou? O que houve? Meu Deus, fale alguma coisa! Pode me ouvir? Ele está convulsionando Pires, tenho certeza!
Calma minha Lady. Você deve ter tido um pesadelo.
Pesadelo? Ulisses, você está fora de si. Por favor, tente se acalmar, já vamos chamar uma ambulância.
Não há necessidade. Posso me levantar sozinho e ir embora caminhando de braços dados com você.
Que cheiro é esse? Você andou bebendo? Como? Porque você não saiu da cadeira e no caminho estávamos juntos. O que está acontecendo aqui?
Calma Cláudia. Podemos conversar em casa?
Se você diz que está se sentindo bem, mas eu dirijo.
Tudo bem. Só me leve para casa. Preciso voltar a dormir, urgente minha Lady, urgente.