quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Às artes

Passo das artes, Sabrina Sanfelice, 2009.

Apaixono-me
Por pequenas artes
Fragmentos
De uma estética sensorial

Nem uma única palavra
Nem ao menos todas
Porque a paixão não é exata
É rompante

Na manhã, suaves acordes
Talvez a música
Teclas de um piano imaginário
No meio das coxas, incessante

À tarde, quente e úmida
Nas cores de um pincel
A força de um papel em branco
Nu e receptivo

E à noite, o findar
Um espetáculo, aplausos
E atrás do palco, descalço
Meu encalistrar

E sempre, elas
Uma a uma, todas
Assim, devagar, de supetão
Palavras, minhas, suas

Poesia, paixão.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A expectativa

"Pessoas", Sabrina Sanfelice, Maceió/AL


O cheiro
Alivia a dor da mortalidade
Abro o armário
E na ausência do ser, olfato

Quero estar perto
Tateio os rastros
Procuro, imploro, propositalmente
Não acho

Invento rostos
Visualmente distorcidos
Na saudade, excitam
Às vezes, confundem

E choro
Numa vala profunda
Na falta, no nada
Só o sabor de sal

Ouço cada passo
O som do beijo
Do compasso do coração
Na boca

Espero, um satori
Na mágica do ser
Que nunca superará
A do será

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Três vezes mulher (Amélia)

Transfiguração feminina, Sabrina Sanfelice, 01-01-14


Há dias em que me pergunto sobre a ingênua felicidade da Amélia. Ouço a roupa da mulata bater na pedra na beira do rio enquanto ensaboa e limpa toda sua tristeza em algo inimaginável como a rotina. E o que mais me incomodou foi observar, ao longo de um dia inteiro, a dedicação de uma galinha com seus pintinhos. Ela respondia aos piados pacientemente, o tempo todo, numa cadência perfeita de quem sabe exatamente o que faz. Guiava as pequeninas aves por todo o terreno, sem qualquer hesitação, como se não tivesse dúvidas sobre o futuro, o qual não a pertencia. (...)

(Trecho do conto "Amélia", do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice, Editora Patuá)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Oculta vaidade

Espelho, espelho seu. Sabrina Sanfelice. Maceió/AL

Com todo desleixo fingido
Grito, aflita, por dentro
Questiono o tempo todo
Por onde estará minha alma?
Se não dançando num espelho?

É triste, é infelicidade
Mas, por hora, não a vejo
Suspiro, apaixonada
O reflexo, por si só é claro
São outros olhos!

O pior de não se ver
É se ver em dupla
Amarrada a fios de cabelo
Numa expectativa insana
Do meu eu-futuro

Infinitas histórias
Contadas uma a uma
Todas, já sei de cor
Um porvir seguro
Tão esperado, vivido
Condenado à narrativas

Na verdade, em suma
Sou pura expectativa
Restos mortais, esquartejados
Minha própria imaginação
Auto-sina, viver de pouco
E para a mente, muito

E quando desisto de mim
Sucumbida em outro
Pelo alheio que não mais está
Ouso virar as costas
Deixar o simulacro
E já sinto o cheiro

Em passos lerdos, se aproxima
Leio sílaba a sílaba
Meu próprio nome
Em qualquer letreiro
E me condeno a você, um eu
Como o rio a Narciso

domingo, 5 de janeiro de 2014

Tira-teima

Alma no beiral, Sabrina Sanfelice

Deixe-me beber
das águas profundas e infinitas
daquilo que reservas pra amanhã

Porque separar a contragosto
todo amor que transpõe os muros
só por medo de ilusão?

O orgulho dos seus lábios
é facilmente corrompido
pelo sabor latente dos seus olhos úmidos

Deixe-me emaranhar nessas tramas
trazer a tona o cadeado
que destranca sua volúpia

Só pra dizer que eu posso
com licença, eu quero
poder dizer, nos seus ouvidos

Palavras de amor
não daquelas que confundem 
aquelas que perdoam

Deixe-me ser pra você
aquilo que você acredita que sou
bem lá no fundo

Sou aquela que limita
com ponteiros e silêncio
como um cubo de gelo

Mas que por dentro
chora, aflita
por um final feliz

Deixe-me
ou viva-me
intensamente

Mas não me poupe
não me tranque para fora
do seu coração

Seja fiel
ao que proclamas quando ama
tua alma infame, que me acolhe

Dia sim, dia não.

Sabrina Sanfelice

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Adeus, ano ímpar

Para todos, Sabrina Sanfelice, 2013


Adeus, ano ímpar

Como diria Marcelo Rubens Paiva, feliz ano velho! E foi feliz mesmo, enquanto durou. Não, não o ano. A felicidade mesmo. 2013 durou todo o ímpeto que um ano ímpar pode causar. Chegou e destruiu muita coisa. Como um bom número 13, quebrou o espelho em pedacinhos, dando reflexos de nós mesmos espalhados por todos os cantos e, como todo espelho que se parte: azar. Mas alguns nem atribuo a ele, afinal, muitos desses estilhaços nos acompanham há muito mais tempo do que esse ano que finda. Talvez fosse melhor que pudéssemos atribuí-los ao calendário, assim iriam embora juntos, de mãos entrelaçadas.
Mas talvez os que morrem com a virada sejam apenas os atos em si e alguns, particularmente, me entristecem. Queria reviver algumas cenas bonitas de 2013. Uma retrospectiva com direito a uma máquina sensorial. Acesso remoto à memória. Queria ver algumas pupilas acendendo de novo. Vi algumas recém-nascidas, olhos que acabaram de acordar e outras que, cansadas, puseram-se a lutar pelo renascimento. Vi multidões de olhos juntos sairem às ruas acendendo a lanterna dos afogados. Vi gente nova no pedaço acender a chama de corações cansados de lutar. Vi gente que já tinha visto e, dessa vez, vi de verdade. Vi coisas que deram vontade de ver mais. Revi, em vários sentidos, a minha própria existência e as coisas que vivem em mim. Vi, vivi, venci.
Venci o estigma de que 2013 foi ruim. Acabo-o com a nostalgia de quem se despede de alguém que sabemos que não mais veremos, mas que vai ficar passeando pela mente, latente, latejando ainda – pelas dores e amores, os cacos de vidro que partiram, furaram, feriram, marcaram, deixaram o rastro de uma experiência que mesmo quando finda ainda dói, aquela dorzinha esquisita, quando o tempo esfria e sentimos lá no fundo a cicatriz da saudade.
Adeus, ano ímpar. Que o próximo possa vir aos pares. Em todos os pares de olhos que espero reacenderem a chama que vi brilhar em 2013.    

Sabrina Sanfelice, 31 de dezembro de 2013

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Desabafo em novembro

Solo, silêncio orfeão. Autorretrato. Sabrina Sanfelice.

Desabafo em novembro

Um dia lindo lá fora! Sim, o dia chama, o calor, as coisas boas da vida! Mas, incrível, incrível como por dentro eu sou nublada, ou melhor, eu preciso ser. Depois que descobri que o que me move são (in)justamente essas lacunas, essas interrogações, necessidade de perguntar o tempo todo, de entender, me vi cercada por, quase a todo momento, um sentimento de falta de paz, mesmo enxergando-a em quase tudo o que vejo.

Hoje comecei o dia pensativa e, claro, assim vou terminá-lo. Mas, antes de qualquer coisa, sempre tento, juro, tento fazer as coisas parecerem suaves como são. Hoje separei objetos, ri com cartas antigas que joguei – algumas no fogo, outras no baú – e fiz um macarrão maravilhoso, mistura das receitas que estão em mim: a massa corpulenta da luta e voz italiana e aquela pitada apimentada e forte espanhola. Almocei olhando meu reflexo na taça que fingi tomar vinho branco enquanto a água com gás borbulhava. 

Impossibilidades! Como elas me atormentam! Mas, por hora, prefiro as que identifico, assim, de cara, não as que me vêm como água e ardem como fogo! Ah! Nesses casos temos que fingir, fazer a história ser real. Trocar o som melancólico do jazz por uma sul-africana fantástica que canta com o calor do sol na boca, uma coisa gostosa de verdade, passar pela mentira de ser animadamente feliz – quase intocável pelo medo de não ser – e ainda aqui estou, sem efeito. 

Incrível como minha mente continua inquieta! O que quero de mim? E eu tento, como tento, mantê-la calma, suave. Mas, não sou assim. Eu sou como o sangue correndo nas veias. Parou, coagulou, morreu. E vivo fazendo perguntas sobre mim mesma que não quero responder. Morro de medo de saber a resposta. Mas morro mais ainda de medo das respostas alheias. Não! A sonora negação do prazer, do amor, da vida. Se me tapam a boca ignoram toda minha alma.

E fico matutando sobre meu discurso constante que bate nas pessoas e volta para mim, intacto, mas um tanto estranho. Eu queria falar o que realmente preciso e não só falar. Mas girei a tramela quando criança. Uma, duas, três vezes, impulsivamente. Sabia que corria o risco de só falar e nunca ouvir. Mas, Deus, como é difícil dizer algumas palavras! E eu sinto tanta falta de dizê-las! Não, não espero ouvi-las. Eu queria ter a liberdade de dizê-las. E o que me faz calar não é aquela covardia presente nos corações humanos que se amedrontam em não serem ouvidos, não serem nem ao menos notados. É dizê-las e não reconhecê-las saindo de minha boca genuinamente...

...afinal, hoje eu sou palavras, amanhã, bem... amanhã, meu bem, eu sou só silêncio.

E o silêncio, o silêncio pode ser a simples calma que afeta a presença das palavras, mas pode ser a vontade não de proferi-las. E como saber com o que estamos lidando? Como jogar palavras ao vento que não sabemos se vai para o norte ou sul? 

Espera. De quem estamos falando? De quem diz ou de quem não diz? É causa ou consequência?

Não, eu ainda não me calei. Eu estou aqui, enquanto as inofensivas palavras podem sair, espontaneamente. O quão inofensivas são essas palavrinhas inocentes? E o quão avassalador é o silêncio? 

Ambos são tão ridículos e tão bonitos.
Ambos são tão parecidos.
Ambos lutam contra eles mesmos, o tempo todo.
E ninguém ganha troféu, nem reconhecimento.
Só ganha aquilo que pode ganhar: o outro.