quinta-feira, 24 de julho de 2014

"...se tens já o silêncio, o que é que tu esperas" (Vera)

O inesquecível, Sabrina Sanfelice, Buenos Aires, 2009

Quando passou pela porta, pensei: está morta. Em lágrimas, falava como as cores eram acinzentadas e como tinha perdido a visão. Era justamente o ponto da neutralidade que assustava. Era turva a pupila, um aleitamento que dava dó. E como era bonita, pensava baixinho ouvindo seus gemidinhos miúdos, tamanha era sua sensibilidade aos sons, único recurso que tentava completar o sentido perdido. Dizia o tempo todo: já estou acostumada, já estou acostumada. Referia-se, por certo, ao sofrimento de uma vida toda. Miseravelmente bonita. E eu fui ficando ruborizado, assim, sem o menor pudor, porque sabia que seria impossível que ela sentisse o tom de vermelho sangue que meu corpo lançava, com uma vontade cada vez maior de engolir toda aquela angústia deslumbrante. E mais do que isso, ela ficava mais atraente cada vez que, invertidamente, ouvia pormenores de minha pobreza de espírito, minha pequenez e, numa sensibilidade absurda, admirava-me como um Deus. Mas só podia estar morta. Estava o mais perto disso que eu já tinha visto em toda a minha vida (...).

(Trecho do conto "Vera", do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice, Editora Patuá)

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A surda

O melhor presente de aniversário, junho de 2014

Ouço nitidamente
Ninguém me chama
Apenas o impulso
Do pensamento longe
Infla-me o ego aflito
Não posso correr da dor
Ela está
Assim como estou
Em ti
Cobrindo-te de afeto
O vento, certeiro
Vem
Empurra-me
Num precipício
Um lado, eu
Do outro, também
Um peito farto
O seu aberto
Ferido eu,
Esquecido tu
Cadê o ego?
Deixo-me
Para ver-me mais
E já não te amo
Quem chama-me
Agora ouço
Completamente
O eco aflito
Do pensamento solto
O eu contido
Agora morto
E eu comigo
Escuto-me
Vivo

quarta-feira, 21 de maio de 2014

"Uma vontade formigante de conhecer todos os segredos..." (Imaculada)

Antman, Sabrina Sanfelice, 2009.

(...) Eram bustos de manequins que aguardavam uma peruca. Tinham olhos voltados para lugares diferentes e davam a impressão de que, quando ninguém estivesse olhando, virariam e começariam uma conversa sobre o que já tinha passado-lhes pelas cabeças, hoje empoeiradas. Potes de xampu espalhados, esmaltes secos, um lavatório e cheiros, muitos cheiros. Acetona com química de permanente. Creme rinse com cabelo queimado. E tinha dias em que os cheiros sumiam, misteriosamente. (...)

A menina, que tinha certeza da espontaneidade do fim e mais certeza ainda da inofensividade de suas histórias, não teve dúvidas sobre como seria o término de sua criação tão malsucedida, da dor que causara com uma simples imaginação fértil e as melhores intenções. Assim como Édipo, mesmo ciente que não poderia saber o que se passava, admitiu que as consequências de seus atos seriam sempre suas, de alguma forma. (...)

(Trecho do conto "Imaculada", do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice, Editora Patuá)

terça-feira, 15 de abril de 2014

Assim me pareceu

Preto no branco, Sabrina Sanfelice, Paraty/RJ

Nada tão acolhedor como tratar o público refletindo, no palco, sua própria face. Jean Baudrillard já defendia há muito tempo que vivemos numa era cujos símbolos têm mais peso e mais força do que a própria realidade. Os simulacros são sempre mais atraentes ao espectador do que o próprio objeto reproduzido. Se não acredita no que digo, fique à vontade para tirar suas próprias conclusões, afinal, longe de mim querer ser dona da verdade, ainda mais uma verdade tão questionável como a tratada na fantástica (na minha humilde opinião) representação da obra de Pirandello na peça “Assim é (se lhe parece)”, em cartaz no Sesc Vila Mariana, em São Paulo.

Ficamos tão à vontade para entrar na história que nos projetamos para uma das cadeiras que estão no palco e, automaticamente, escolhemos um lado, mesmo que ele seja questionado o tempo todo por nosso senso crítico, dizendo: no fundo, é só uma questão sobre a autenticidade do olhar humano, eu sei bem disso. Chega a ser uma ironia apontada para dentro. Ainda bem que não tenho nada a ver com isso! – respiramos aliviados. 

Em outros momentos, moralmente escolhemos o lado daquele que questiona, instiga, provoca, como se assim fôssemos, todos, justos e conscientes. Mas, vez ou outra, mesmo os mais politicamente corretos, projetam-se para o espelho do autor escrevendo a obra (inclusive os que nunca ouviram falar dele) e pensam (mesmo sem saber que pensam): será mesmo que lá no fundo ele não quis nos dizer sobre a verdade esfregando-nos na cara que a vida é, o tempo todo, uma escolha? Até mesmo a sua própria em escrever-nos sobre esse tema?

Me pus a pensar em que lado ficou Pirandello ao escrever esse belíssimo conto, porque, mesmo um filósofo instigador acaba por se apaixonar pela essência de alguma razão e projeta isso num viés inconsciente. Mesmo a mais autêntica obra sobre a verdade se autoquestiona nas entrelinhas. Ao apontar-nos, o próprio autor, por fim, se aponta e nos dá o bálsamo de entendermo-nos humanos, todos, indo para casa tranquilos de que desempenhamos bem o papel que nos é cabido: o de questionadores.

Uma reflexão altamente recomendada e, sem dúvidas, belíssima (sim, eu tenho certeza que vi beleza): http://www.assimeselheparece.com.br/

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Animal de poder

Bolinha, 2013, Sabrina Sanfelice.



Um Animal de Poder é um arquétipo, ou manifestação simbólica, uma manifestação de forças interiores que atua como guia ou mentor, uma energia, uma forma que representa nossa personalidade ou comportamento (Espírito Animal/Totem). Eles aparecem para chancelar o que você está vivendo no momento, ou para alertar sobre a mudança necessária que devemos realizar em nossas vidas. 

No último dia de Agosto de 2013 fui mordida por esse figurinha da foto. E, na época, fiquei muito tempo pensando no que isso significava, além de todas as coisas comuns que as pessoas pensam, como o acaso, o cheiro de um gato ou um esbarrão. Mas nada apontava para algo concreto. Além do mais, Bolinha é uma figura dócil e querida. O que teria provocado sua ira naquele dia?

Hoje, quase um ano depois, sem querer, revirando a vida, os fatos, as coisas, lembrei que no xamanismo, o cachorro, como um animal de poder, representa a lealdade. Principalmente a lealdade que devemos prestar contas a nós mesmos. E eu estava quase desistindo de mim, numa espécie de traição súbita daquilo que carrego na alma. E precisamos passar, muitas vezes, por vários estágios antes de aceitar nossa essência. Um deles, a raiva.

Não, não tive raiva. Bolinha é um cachorro querido e muito bem cuidado, vacinado. Mas uma única mordida foi suficiente para exorcizar toda a angústia em não me libertar. Foi o beliscão, o início, um satori, estado de luz que me mostrou que a vida pode ser violentamente dolorosa quando não sabemos com quem estamos lidando. E só saberemos se formos, na totalidade, fiéis a nós mesmos, o tempo todo. 

O amor começa de dentro para fora. E tem amor mais fiel do que o de um cão? Ele, sobretudo, ama o é.

Uma mordida do destino. Poucos tem essa sorte. Obrigada, querido amigo Bolinha. Que todos saibam o que você fez por mim, da maneira mais bonita que se pode observar o ato sagrado de um animal de poder.




segunda-feira, 31 de março de 2014

Mais um cigarro, meu amor

O último cigarro, Sabrina Sanfelice, 2008.


Domingo. Vejo um filme na TV. Aqueles que assistimos enquanto terminamos de comer alguma coisa, esperamos o sono chegar ou qualquer que seja o motivo, sem motivo. E esbarrei numa cena. Um dos personagens disse, em tom de brincadeira para outro, que estava acompanhando uma mulher apenas para acender-lhe o cigarro quando ela precisasse.

Coloquei o copo na mesinha e fiquei olhando o cinzeiro vazio que estava em minha frente. Eu não fumo há séculos. Cigarro faz mal. Mas no cinema o cigarro ainda é um luxo atraente. Nos faz pensar no pós-sexo, no glamour das musas, no “Boa noite e boa sorte”. Toda gente bem resolvida, fuma. No final, a satisfação é selada por um cigarro.

Acho que é bem isso mesmo. As pessoas estão juntas para acender a chama umas das outras. Desde que ambas fumem, claro. Senão, seria expectativa demais querer que alguém acenda seu cigarro quando não carrega um isqueiro. Ou seria fantasia demais esperar que alguém acenda sua chama se você não fuma.

Entrei na padaria. Nunca é tarde. Todos esperam a segunda-feira para começar alguma coisa. 

domingo, 16 de março de 2014

Metrópole

Encontro inesperado, Cemitério do Araçá, Sabrina Sanfelice, 2013.

Desencontro
Desencanto
Parada, no meio-fio
Quero ir
Qualquer esquina
Uma eira,
Planície, montanha
O boteco sujo
O banheiro ao lado
Peço com a mão
Num gesto tímido
Preciso entrar!
Perdi a linha
As estribeiras
O motorista, rindo
Me acena
Como quem diz
Vai passar!
Do outro lado
O estranho chama
E fala agoniado
Foi engano!
E entende mal
Fica puto, o coitado
Eu imploro
Fala comigo!
Não desligo
Repito, apressada
Com quem você quer falar?
E sento,
Na beira
Do eu-mudo
Do colapso
Em pé cansa
Não sinto mais
A sola dos meus passos
E lerda, pairo no ar
Com um pensamento irado
De morte,
Ora de sorte
Punhos cerrados
Pela mínima possibilidade
De te achar
Agora ando
Empurrada
Pela rotina estranha
De qualquer ser humano
Que do amor
Só sobrevive
Meu olhar é vago
Triste, de gente coitada
Esquecida
Até a florista tenta
Quando passo
Me encantar 
Me oferece odores
Falsos, de margaridas
Que só me lembram
Ainda mais
Cravos, todos
Enfiados no músculo
Da minha alma traída
A contragosto
Mudo a rota, dobro a esquina
Subo a rua à direita
Da sua, sempre sua
Aquela rua,
Tortuosa
Que não cabe
Não mais
No curvilíneo
Corpo, afoito
Meu, antes seu
O mapa que me deram
Desatualizado
De uma cidadezinha 
Minúscula
Onde todos se conhecem
E sabem
Não há prédios
E enfeites
Que tirem a atenção
A gentileza
Dos encontros da vida
Não há paradas vazias
Onde o silêncio
Nunca encontra palavras
Para dizer, mesmo baixo
E, por vezes, necessário
Oi, tchau.