quarta-feira, 13 de maio de 2015

Segregada(mente)

Carta, lembranças e chá. Sabrina Sanfelice. Maio de 2015.

Lamento muitas vezes o silêncio que te habita
Para, depois, ressurgir com uma potência exata de glória
E coloco-me aos seus pés, arranca-me os cabelos
Fios em sépia para eternizar o tempo
Desbotado e inerte por gotas de suor.

Submeto-me à angústia desesperada do hoje
Para, então, amanhã, sentir a intensidade brusca da dor
Estrangulada, tornar-se puro néctar
Ouso provar do meu próprio veneno,
Cultivado cuidadosamente num jardim circular.

Afasto-me, tiro a roupa e roubo a cena
Fogos de artifício para celebrar meu desalento
Para, somente, deixar findar o que há em mim que não tem cura
Demasiado, o prazer, a tortura, a doçura
Tudo, sem exceção, (es), vai...

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Afinal

Cada casa, um coração. Sabrina Sanfelice, 2014.

O que você quer, afinal?
Quem pergunta a quem?
Ouça a pergunta.
Quem?
Ouça.
Afinal.

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O que você quer saber de verdade?


Vai sem direção
Vai ser livre
A tristeza não
Não resiste
Solte os seus cabelos ao vento
Não olhe pra trás
Ouça o barulhinho que o tempo
No seu peito faz
Faça sua dor dançar
Atenção para escutar
Esse movimento que traz paz
Cada folha que cair,
Cada nuvem que passar
Ouve a terra respirar
Pelas portas e janelas das casas
Atenção para escutar
O que você quer saber de verdade

(Marisa Monte, cantada ao vento porque é pra lá que eu vou. Vou vivenciar o que há em mim que preciso ver de verdade.) Tchau!

sábado, 3 de janeiro de 2015

A galope

Música tema. Janeiro de 2015.

Todos os dias é dia de caminhar. Andar no trilho da vida, que não nos deixa dormir. Não há de nos trazer paz. Coisa impulsionada pelo calor das emoções. Noutras há de não se buscar nada, além do rumo cego que conduz ao vácuo. Aquele barulho incessante que vem de dentro e diz: anda! anda! Dar com a cara na porta. E não haverá nenhuma chave. Nem antídotos. Não há para quem reclamar. Só caminhar, caminhar. Por hora, digo que preciso. Uma venda nos olhos, esses já deslumbrados pelo vício de viver o que se coloca à frente. Buscar, buscar o caminho. Um cavalo velho, frouxo, cansado, encostado, em qualquer sombra, amarrado. Hoje come milho e amanhã, capim. Quando solto no pasto, contempla o horizonte mas não se movimenta, olha para trás e continua vendo a corda. No pescoço. E nem a corda existe mais. E nem ele se vê como coitado. Ele aceita sua condição, condução, coexistência. Aceita que nasceu aprendendo a olhar para frente e puxar, carregar nas costas esse peso danado da vida. A vida dos outros. Ele é um pouco a menina com laço vermelho no cabelo que, sentada no banquinho da carroça, ri de sua desgraça. Ela nasceu há tantos anos e continua pequena. Não para um segundo sequer de rir. Diz que espanta a infelicidade. E ri alto a menina. Parece feliz de verdade! É um pouco o velho ranzinza que o chicoteia com raiva de sua incompletude. E a cada vez que levanta o couro para bater, sente a ponta ricochetear seu próprio lombo endurecido. E é um pouco o moço, jovem e bonito, mas por destino, cego, surdo e mudo. Ele contempla a mesma paisagem que os outros, como um filminho colorido que ficou gravado dentro dele, o mesmo, todos os dias. E quando largado no pasto, com um horizonte só dele, o corcel retalhado que um dia foi potro forte, quando não pode mais ouvir as vidas alheias que, por hora, são as suas próprias, já não consegue tampouco comer o que lhe é dado. O estômago dói, sente que se esvai numa inanição vívida, está tudo por um fio. Não sabe que gosto tem sua própria saliva. Não sabe onde dói, se é nas pernas cansadas da vida ou se no peito afundado para dentro. Ele vê o buraco cheio de bicheira. E elas estão todas gordas e sadias, se alimentando de algo que deve ser bom. Curioso, dobra o dorso e arranca uma lasca, morde sem dó. A dor é tão insana que ele tenta colar de novo o pedaço, mas é tarde demais. Não há como parar de ver o buraco sangrando, o sabor doce de sua nova condição. Ao longe, a menina continua rindo, vindo saltitante em sua direção buscar conforto para sua longa jornada. O velho morde os lábios e saliva enquanto procura o pedaço de couro que o faz ter a grandeza que merece. E o moço, hoje, pensa que vai seguir a carroça a pé, para ver o destino do cavalo. Ele tem alguns segundos, apenas o tempo necessário para roer a corda e galopar para longe. Mas ele está cansado demais hoje. E sangra por causa da mordida profunda, autoflagelo que lhe soa desnecessário nessa altura da vida. Começa, então, a mastigar, passa a engolir tudo, aos poucos, toda a massa quente e confortável que antes o fazia ficar de pé. De longe todos olham assustados o cavalo triturando a própria carne, assim, como se não dessem milho e capim todos os dias. Bicho ingrato! Sua existência é, aos poucos, bebida morna que desce pela garganta desse ser aterrorizado. Suas pernas somem, ele já não tem como justificar porque anda. Caem no chão a cela, os laços, e a crina, ainda bem bonita. A corda fica frouxa e ele sente o nó em sua garganta. Ainda tenta fuçar no chão o cheiro de seu passado, passar o focinho só um pouco, uma lembrança, misericórdia. Mas tudo tem cheiro de sangue fresco. Tem gosto do agora. A abundância da realidade afundou toda a alma flagelada no solo, restando apenas o espectro neutro de um cavalo. A menina chega e seu riso paira sobre os olhos fixos do quadrúpede, único sinal de sua presença física. Ela se assusta com aquele monte de pelos dourados que cobrem a grama. Como era bonito! Tira delicadamente o tapa-olhos para que ele veja. E ele não mais a reconhece. O som da risada dela vai ficando cada vez mais longe e em sua visão, agora alargada, percebe que ela corre rumo ao horizonte, sem medo. Lá ela pode existir por conta própria. Ela vira para trás, acena um adeus mágico e grita bem alto: corre, corre! O bicho, esvaindo em sangue vivo, agora cheio de impulso, dá a última mordida, o corte seco no cordão da vida. Recém-engolido, ele já não existe mais. Pode, enfim, caminhar. Todos os dias é dia de caminhar. Andar no trilho da vida. Essa, sim, há de trazer paz. Coisa impulsionada pelo calor das emoções. Noutras há de não se buscar nada, além do rumo cego que conduz ao vácuo. Aquele barulho incessante que vem de dentro e diz: anda! anda! Hoje é dia de caminhar.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Reticências...

Adeus, 2014. Sabrina Sanfelice, 31 de dezembro.

Os primeiros fogos de artifício colorem o céu de 2015! Olho para cima e depois vislumbro no horizonte, ainda quente, o adormecido ano de dois mil e quatorze. Suas pálpebras começam a baixar e ele ainda me acena, respirando fundo, cada vez mais lentamente e calmamente, como se aos poucos sonhasse com seus melhores momentos para cada um dos seres humanos que tocou. E esboça um sorriso pelo canto da boca, como uma criança sonhando com as longas tardes de vestígios do ontem, brincadeiras e risadas, os motivos exatos de cada uma das alegrias alheias.

E me despeço, como aquela que sai de cena, por opção própria, mas que não deixa de agradecer toda a experiência mágica que a transformou em cada hora ou segundo de possibilidades. Na minha mão esquerda, seguro as mãos daqueles que tocaram fundo meu coração. Amigos, amores, tão íntimos, tão queridos, que recitaram poemas ao pé do ouvido quando tudo tinha jeito de festa e, noutras vezes, o trágico sabor da desgraça. Mãos quentes, mãos de gente, calor humano que vai alastrando o corpo todo até virar um abraço forte e terno, que aconchega, acalma, perdoa, absolve, apaixona. Na mão direita, seguro firme as páginas de um livro, novo, o primeiro, a satisfação, a realização, o amor. Tão sublime, seu peso, na balança da vida, leve como pena, forte como chumbo. E leio, na primeira página, velha e sábia: verdade.

O que sobra de mim, nessa imagem sacrossanta, agarrada ao pedestal que me sustenta, um anjo que rege a própria vida e assim se condena à própria sorte, as duas mãos ocupadas com a vida, as escolhas, sobra, então, o coração. Assim, exposto, como o sagrado, parte espinho, parte flores, pode-se ver pulsante, vivo, rubro, apaixonado. Nas veias que sobem pelo pescoço, nota-se um certo volume, o aperto que o sangue vermelho vibrante causa ao ir para o cérebro, como quem diz: temas, mas deixe-me fluir! E aos poucos, ao tomar conta de tudo, vai impulsionando a vida, essa, que segue, rumo ao inesperado ano novo!

Pego um copo de qualquer coisa, água e vinho, porque a euforia me contagia, essa ansiedade louca de correr e pular no pescoço da vida. Ouço cada rojão que estoura no céu, danço e rodopio, no meio da rua. E já não sei quando parar, qual será o primeiro rosto a olhar quando abrir os olhos. E escolho abri-los ainda girando, para mostrar que posso olhar para tudo ao mesmo tempo, sem perder nada, porque não tenho posse do que me faz viva e ao mesmo tempo contenho cada gota do que já preenche o que sou. E vejo, de novo, no horizonte, agora totalmente adormecido, embalado pela experiência viva da única coisa que faz com que possamos ter certeza de qualquer coisa que fomos, somos e talvez, talvez... Fecho os olhos, em prece, junto com aquele que vai embora, agora, totalmente embalado pelo sono dos ébrios e desejo. Uma estrela cadente pode ter cruzado o céu nesse momento, não saberei. Todas as portas se abrem, uma a uma, sem chaves, tenho o poder de trancar o que quero, atravessar... Mas, por hoje, só por hoje, elas permanecem abertas na alma desse ser um pouco mais transformado.


Feliz, feliz 2015!

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Lançamento do meu livro de contos "Nós Vós Elas"



Queridos amigos e leitores do blog:

Compartilho minha alma com vocês...


A Editora Patuá e o Instituto Hilda Hilst (IHH) convidam a todos para o lançamento do livro "NósVósElas", contos de Sabrina Sanfelice.

O evento será realizado dia 30/10 (quinta-feira) a partir das 19h no Instituto Hilda Hilst - Rua João Caetano Monteiro, s/n - Pq. Xangrilá - Campinas/SP

A entrada para o evento é gratuita e o livro estará à venda por R$ 35,00 (ATENÇÃO: pagamento apenas em dinheiro ou cheque).

Com a performance teatral “Janelas para uma mulher”.

Direção e atuação: Juliana Calligaris | Orientação: Leticia Olivares | Texto de Juliana Calligaris baseado no original de Monalisa Vasconcelos

Com bebidinhas do Bar do Bico antes, durante e depois (cheque, dinheiro ou cartão de crédito).

O livro já está à venda em nosso catálogo. As compras pelo site podem ser parceladas em até 12x. Aproveite!


domingo, 17 de agosto de 2014

Boa noite, capitão

Lost photo, acervo pessoal, Sabrina Sanfelice

Meu bloco de notas é de um Encontro Nacional da Memória. Me dei conta, ao abri-lo, que guardei dentro alguns prospectos que me fizeram voltar ao tempo passado. E essas simples impressões constataram que eu não escrevia há muito tempo. Risquei uma palavra repetida nesse parágrafo para não empobrecer a história. A única que quase não conseguimos sinônimos quando estamos falando do que já foi. O tempo. Pronto. Escrevi de novo. É uma palavra que me persegue desde que comecei a pensar em abrir esse bendito bloco de papel. Achei, inclusive, que não estava reconhecendo meus dedos segurando a caneta para escrever. Deitado na cama com a pasta que guarda esses papéis velhos onde está preso o bloco de notas, apoiada nas coxas dobradas, a luminária do criado-mudo proporciona uma sombra dura em cima do texto. Dura como a falta de fé. Algo que atrapalha o reconhecimento da palavra antes que ela surja escrita. A sombra persegue o texto, ainda virgem, puro e não corrompido. Como a morte que assola um recém-nascido antes de abrir os olhos. Como o eco da própria voz ao falar no telefone nos impede de prestar atenção em qualquer coisa falada que não seja nossa própria fala. Viro a folha e, para isso, sou obrigado a destacá-la do bloco de notas. Faz um barulho alto para a hora que passa, já passou, discretamente, da uma da manhã. Novamente menciono o tempo. E mais uma vez digo, com todas as letras: é tarde, muito tarde. É essa ânsia que me assombra enquanto tateio o que passou. Uma espécie de falta de conduta com o que resta. Não há meios de tentar pensar em outra coisa. Não, não é arrependimento. É falta. O que persiste. E até Dali sabia quando era afetado pela existência linear temporal. O que persiste é o que lembramos. E minhas queixas são as mais simples e puras. Eu não me lembro. Me sobra um lapso. E eu bem tento encaixar prazer no presente que possa suprimir esse descontínuo que há em mim. Mas quando estou no auge de qualquer coisa que me conduz a uma experiência excitante e memorável, volto a pensar que logo ela desaparecerá como um sopro. Não porque não seja digna. Como aquele instante em que se apaga uma vela no candelabro antes de dormir. Na maioria das vezes, a fumaça, signo que nos indica que ali houve vida, se dissipa e me deixa. E agora, nesse instante não performático da escrita, nem ao menos tenho uma vela. A luz dura da luminária ligada na tomada me mostra que quanto mais as coisas se tornam efêmeras, mais eu mesmo me torno instantâneo. Um pedaço de cera escorrida na qual o pavio está curto. Eu não tenho tempo para a humanidade absorta em vida. E uma vida rápida para alguém como eu torna a existência insuportável. Agora, para mim, a história se resume num sopro contínuo de milhares de crianças que fazem, juntas, seu primeiro ano de vida. Mais de mil felicidades para serem vividas num único assoprar, excessivamente rápido e devastador, de velinhas coloridas que piscam e voltam a acender. Não sou velho, embora também não seja novo. Sou justamente onde o tempo parece parar e questionar a falta. Não há o que se fazer quando a vida nos pede satisfações de algo que não temos. Um lapso. Não tenho respostas ao que me falta. Minha justificativa é a mesma do ponteiro do relógio. Passo de um minuto a outro sem consciência exata do que houve nesse percurso. Me movo para frente e mesmo passando pelo mesmo ponto diversas vezes não me ocupo em saber onde estou. O meu estar depende de outros ponteiros, que me cobram a exatidão de meus passos. As horas são as mesmas e eu nem as reconheço como minhas. É um fardo pesado demais para um homem não poder ao menos escrever suas memórias. Abdicar-se do que lhe resta sem nem ter certeza de que isso é o resto de algo que o satisfaz. As palavras, nesse caso, são bálsamo seguro, mesmo aquelas que são contadas por mãos alheias. Essas principalmente. Às vezes, por piedade ou gentileza de quem me guarda em algo de atemporal. E enquanto ela escrever, a mão alheia que toca meu rosto nas noites de solidão, eu poderei apagar a luz instantânea do criado-mudo e adormecer como o personagem de uma história qualquer, sem quaisquer certezas ou memórias que já não me convêm mais ter.

Sabrina Sanfelice, num dia qualquer.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

"...se tens já o silêncio, o que é que tu esperas" (Vera)

O inesquecível, Sabrina Sanfelice, Buenos Aires, 2009

Quando passou pela porta, pensei: está morta. Em lágrimas, falava como as cores eram acinzentadas e como tinha perdido a visão. Era justamente o ponto da neutralidade que assustava. Era turva a pupila, um aleitamento que dava dó. E como era bonita, pensava baixinho ouvindo seus gemidinhos miúdos, tamanha era sua sensibilidade aos sons, único recurso que tentava completar o sentido perdido. Dizia o tempo todo: já estou acostumada, já estou acostumada. Referia-se, por certo, ao sofrimento de uma vida toda. Miseravelmente bonita. E eu fui ficando ruborizado, assim, sem o menor pudor, porque sabia que seria impossível que ela sentisse o tom de vermelho sangue que meu corpo lançava, com uma vontade cada vez maior de engolir toda aquela angústia deslumbrante. E mais do que isso, ela ficava mais atraente cada vez que, invertidamente, ouvia pormenores de minha pobreza de espírito, minha pequenez e, numa sensibilidade absurda, admirava-me como um Deus. Mas só podia estar morta. Estava o mais perto disso que eu já tinha visto em toda a minha vida (...).

(Trecho do conto "Vera", do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice, Editora Patuá)

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A surda

O melhor presente de aniversário, junho de 2014

Ouço nitidamente
Ninguém me chama
Apenas o impulso
Do pensamento longe
Infla-me o ego aflito
Não posso correr da dor
Ela está
Assim como estou
Em ti
Cobrindo-te de afeto
O vento, certeiro
Vem
Empurra-me
Num precipício
Um lado, eu
Do outro, também
Um peito farto
O seu aberto
Ferido eu,
Esquecido tu
Cadê o ego?
Deixo-me
Para ver-me mais
E já não te amo
Quem chama-me
Agora ouço
Completamente
O eco aflito
Do pensamento solto
O eu contido
Agora morto
E eu comigo
Escuto-me
Vivo

quarta-feira, 21 de maio de 2014

"Uma vontade formigante de conhecer todos os segredos..." (Imaculada)

Antman, Sabrina Sanfelice, 2009.

(...) Eram bustos de manequins que aguardavam uma peruca. Tinham olhos voltados para lugares diferentes e davam a impressão de que, quando ninguém estivesse olhando, virariam e começariam uma conversa sobre o que já tinha passado-lhes pelas cabeças, hoje empoeiradas. Potes de xampu espalhados, esmaltes secos, um lavatório e cheiros, muitos cheiros. Acetona com química de permanente. Creme rinse com cabelo queimado. E tinha dias em que os cheiros sumiam, misteriosamente. (...)

A menina, que tinha certeza da espontaneidade do fim e mais certeza ainda da inofensividade de suas histórias, não teve dúvidas sobre como seria o término de sua criação tão malsucedida, da dor que causara com uma simples imaginação fértil e as melhores intenções. Assim como Édipo, mesmo ciente que não poderia saber o que se passava, admitiu que as consequências de seus atos seriam sempre suas, de alguma forma. (...)

(Trecho do conto "Imaculada", do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice, Editora Patuá)

terça-feira, 15 de abril de 2014

Assim me pareceu

Preto no branco, Sabrina Sanfelice, Paraty/RJ

Nada tão acolhedor como tratar o público refletindo, no palco, sua própria face. Jean Baudrillard já defendia há muito tempo que vivemos numa era cujos símbolos têm mais peso e mais força do que a própria realidade. Os simulacros são sempre mais atraentes ao espectador do que o próprio objeto reproduzido. Se não acredita no que digo, fique à vontade para tirar suas próprias conclusões, afinal, longe de mim querer ser dona da verdade, ainda mais uma verdade tão questionável como a tratada na fantástica (na minha humilde opinião) representação da obra de Pirandello na peça “Assim é (se lhe parece)”, em cartaz no Sesc Vila Mariana, em São Paulo.

Ficamos tão à vontade para entrar na história que nos projetamos para uma das cadeiras que estão no palco e, automaticamente, escolhemos um lado, mesmo que ele seja questionado o tempo todo por nosso senso crítico, dizendo: no fundo, é só uma questão sobre a autenticidade do olhar humano, eu sei bem disso. Chega a ser uma ironia apontada para dentro. Ainda bem que não tenho nada a ver com isso! – respiramos aliviados. 

Em outros momentos, moralmente escolhemos o lado daquele que questiona, instiga, provoca, como se assim fôssemos, todos, justos e conscientes. Mas, vez ou outra, mesmo os mais politicamente corretos, projetam-se para o espelho do autor escrevendo a obra (inclusive os que nunca ouviram falar dele) e pensam (mesmo sem saber que pensam): será mesmo que lá no fundo ele não quis nos dizer sobre a verdade esfregando-nos na cara que a vida é, o tempo todo, uma escolha? Até mesmo a sua própria em escrever-nos sobre esse tema?

Me pus a pensar em que lado ficou Pirandello ao escrever esse belíssimo conto, porque, mesmo um filósofo instigador acaba por se apaixonar pela essência de alguma razão e projeta isso num viés inconsciente. Mesmo a mais autêntica obra sobre a verdade se autoquestiona nas entrelinhas. Ao apontar-nos, o próprio autor, por fim, se aponta e nos dá o bálsamo de entendermo-nos humanos, todos, indo para casa tranquilos de que desempenhamos bem o papel que nos é cabido: o de questionadores.

Uma reflexão altamente recomendada e, sem dúvidas, belíssima (sim, eu tenho certeza que vi beleza): http://www.assimeselheparece.com.br/

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Animal de poder

Bolinha, 2013, Sabrina Sanfelice.



Um Animal de Poder é um arquétipo, ou manifestação simbólica, uma manifestação de forças interiores que atua como guia ou mentor, uma energia, uma forma que representa nossa personalidade ou comportamento (Espírito Animal/Totem). Eles aparecem para chancelar o que você está vivendo no momento, ou para alertar sobre a mudança necessária que devemos realizar em nossas vidas. 

No último dia de Agosto de 2013 fui mordida por esse figurinha da foto. E, na época, fiquei muito tempo pensando no que isso significava, além de todas as coisas comuns que as pessoas pensam, como o acaso, o cheiro de um gato ou um esbarrão. Mas nada apontava para algo concreto. Além do mais, Bolinha é uma figura dócil e querida. O que teria provocado sua ira naquele dia?

Hoje, quase um ano depois, sem querer, revirando a vida, os fatos, as coisas, lembrei que no xamanismo, o cachorro, como um animal de poder, representa a lealdade. Principalmente a lealdade que devemos prestar contas a nós mesmos. E eu estava quase desistindo de mim, numa espécie de traição súbita daquilo que carrego na alma. E precisamos passar, muitas vezes, por vários estágios antes de aceitar nossa essência. Um deles, a raiva.

Não, não tive raiva. Bolinha é um cachorro querido e muito bem cuidado, vacinado. Mas uma única mordida foi suficiente para exorcizar toda a angústia em não me libertar. Foi o beliscão, o início, um satori, estado de luz que me mostrou que a vida pode ser violentamente dolorosa quando não sabemos com quem estamos lidando. E só saberemos se formos, na totalidade, fiéis a nós mesmos, o tempo todo. 

O amor começa de dentro para fora. E tem amor mais fiel do que o de um cão? Ele, sobretudo, ama o é.

Uma mordida do destino. Poucos tem essa sorte. Obrigada, querido amigo Bolinha. Que todos saibam o que você fez por mim, da maneira mais bonita que se pode observar o ato sagrado de um animal de poder.




segunda-feira, 31 de março de 2014

Mais um cigarro, meu amor

O último cigarro, Sabrina Sanfelice, 2008.


Domingo. Vejo um filme na TV. Aqueles que assistimos enquanto terminamos de comer alguma coisa, esperamos o sono chegar ou qualquer que seja o motivo, sem motivo. E esbarrei numa cena. Um dos personagens disse, em tom de brincadeira para outro, que estava acompanhando uma mulher apenas para acender-lhe o cigarro quando ela precisasse.

Coloquei o copo na mesinha e fiquei olhando o cinzeiro vazio que estava em minha frente. Eu não fumo há séculos. Cigarro faz mal. Mas no cinema o cigarro ainda é um luxo atraente. Nos faz pensar no pós-sexo, no glamour das musas, no “Boa noite e boa sorte”. Toda gente bem resolvida, fuma. No final, a satisfação é selada por um cigarro.

Acho que é bem isso mesmo. As pessoas estão juntas para acender a chama umas das outras. Desde que ambas fumem, claro. Senão, seria expectativa demais querer que alguém acenda seu cigarro quando não carrega um isqueiro. Ou seria fantasia demais esperar que alguém acenda sua chama se você não fuma.

Entrei na padaria. Nunca é tarde. Todos esperam a segunda-feira para começar alguma coisa. 

domingo, 16 de março de 2014

Metrópole

Encontro inesperado, Cemitério do Araçá, Sabrina Sanfelice, 2013.

Desencontro
Desencanto
Parada, no meio-fio
Quero ir
Qualquer esquina
Uma eira,
Planície, montanha
O boteco sujo
O banheiro ao lado
Peço com a mão
Num gesto tímido
Preciso entrar!
Perdi a linha
As estribeiras
O motorista, rindo
Me acena
Como quem diz
Vai passar!
Do outro lado
O estranho chama
E fala agoniado
Foi engano!
E entende mal
Fica puto, o coitado
Eu imploro
Fala comigo!
Não desligo
Repito, apressada
Com quem você quer falar?
E sento,
Na beira
Do eu-mudo
Do colapso
Em pé cansa
Não sinto mais
A sola dos meus passos
E lerda, pairo no ar
Com um pensamento irado
De morte,
Ora de sorte
Punhos cerrados
Pela mínima possibilidade
De te achar
Agora ando
Empurrada
Pela rotina estranha
De qualquer ser humano
Que do amor
Só sobrevive
Meu olhar é vago
Triste, de gente coitada
Esquecida
Até a florista tenta
Quando passo
Me encantar 
Me oferece odores
Falsos, de margaridas
Que só me lembram
Ainda mais
Cravos, todos
Enfiados no músculo
Da minha alma traída
A contragosto
Mudo a rota, dobro a esquina
Subo a rua à direita
Da sua, sempre sua
Aquela rua,
Tortuosa
Que não cabe
Não mais
No curvilíneo
Corpo, afoito
Meu, antes seu
O mapa que me deram
Desatualizado
De uma cidadezinha 
Minúscula
Onde todos se conhecem
E sabem
Não há prédios
E enfeites
Que tirem a atenção
A gentileza
Dos encontros da vida
Não há paradas vazias
Onde o silêncio
Nunca encontra palavras
Para dizer, mesmo baixo
E, por vezes, necessário
Oi, tchau.

domingo, 9 de março de 2014

A copla do agônico

"Luna caida", por Sabrina Sanfelice, Recoleta, Buenos Aires, 2009.


Tem um monte de dor
Que vaga sóbria
Cobre o ser de luz
Para que, sozinho, chore

E cada segundo do pranto
Faz do sofrimento um tudo
Um pouco de amargo
E muito de santo

O gosto que desce as amígdalas
Alimenta a alma
Pouco a pouco
Deixo-o intrínseco

Na ânsia, quanto mais dói
Mais clama, mais chama
Mais rima a trama
Do poeta triste

E ele vê, claramente
Que de genuíno o peso da vida
É como chumbo
Leve como pena

A pena do moribundo
Daquele que chora
Enquanto as palavras saem
Soluçantes, pingo a pingo do tinteiro

O papel é aquele que se entrega
Em branco, sem vida
Grita aflito pelas horas
Em que cada sílaba o corrói

E a dor que antes sóbria
Agora bebe tudo
Afoga em mágoa o bobo
Embebeda de glamour o escrever

E o homem, o que precisa delas
Uma a uma
Todas, no feminino
Dor e palavras a seu bel prazer

terça-feira, 4 de março de 2014

Fantasia

Mais de mil palhaços, Sabrina Sanfelice, 2008

O que quer o corpo
Veste-se de chamas
E em alto e bom tom
Grita a folia:
É hora!

O outro, recalcado
Com a alma presa
A ela, à janela, à tela
Chora, ri e exclama:
Palhaço!

O pobre descalço
Cata, amassa, ensaca
O nó na garganta
No monte de lata, canta:
Passa!

E o poeta
Não sabe o dia
Nem a hora do dizer
Em sua fantasia, apenas assina
Arlequim.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Às artes

Passo das artes, Sabrina Sanfelice, 2009.

Apaixono-me
Por pequenas artes
Fragmentos
De uma estética sensorial

Nem uma única palavra
Nem ao menos todas
Porque a paixão não é exata
É rompante

Na manhã, suaves acordes
Talvez a música
Teclas de um piano imaginário
No meio das coxas, incessante

À tarde, quente e úmida
Nas cores de um pincel
A força de um papel em branco
Nu e receptivo

E à noite, o findar
Um espetáculo, aplausos
E atrás do palco, descalço
Meu encalistrar

E sempre, elas
Uma a uma, todas
Assim, devagar, de supetão
Palavras, minhas, suas

Poesia, paixão.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A expectativa

"Pessoas", Sabrina Sanfelice, Maceió/AL


O cheiro
Alivia a dor da mortalidade
Abro o armário
E na ausência do ser, olfato

Quero estar perto
Tateio os rastros
Procuro, imploro, propositalmente
Não acho

Invento rostos
Visualmente distorcidos
Na saudade, excitam
Às vezes, confundem

E choro
Numa vala profunda
Na falta, no nada
Só o sabor de sal

Ouço cada passo
O som do beijo
Do compasso do coração
Na boca

Espero, um satori
Na mágica do ser
Que nunca superará
A do será