domingo, 9 de março de 2014

A copla do agônico

"Luna caida", por Sabrina Sanfelice, Recoleta, Buenos Aires, 2009.


Tem um monte de dor
Que vaga sóbria
Cobre o ser de luz
Para que, sozinho, chore

E cada segundo do pranto
Faz do sofrimento um tudo
Um pouco de amargo
E muito de santo

O gosto que desce as amígdalas
Alimenta a alma
Pouco a pouco
Deixo-o intrínseco

Na ânsia, quanto mais dói
Mais clama, mais chama
Mais rima a trama
Do poeta triste

E ele vê, claramente
Que de genuíno o peso da vida
É como chumbo
Leve como pena

A pena do moribundo
Daquele que chora
Enquanto as palavras saem
Soluçantes, pingo a pingo do tinteiro

O papel é aquele que se entrega
Em branco, sem vida
Grita aflito pelas horas
Em que cada sílaba o corrói

E a dor que antes sóbria
Agora bebe tudo
Afoga em mágoa o bobo
Embebeda de glamour o escrever

E o homem, o que precisa delas
Uma a uma
Todas, no feminino
Dor e palavras a seu bel prazer

terça-feira, 4 de março de 2014

Fantasia

Mais de mil palhaços, Sabrina Sanfelice, 2008

O que quer o corpo
Veste-se de chamas
E em alto e bom tom
Grita a folia:
É hora!

O outro, recalcado
Com a alma presa
A ela, à janela, à tela
Chora, ri e exclama:
Palhaço!

O pobre descalço
Cata, amassa, ensaca
O nó na garganta
No monte de lata, canta:
Passa!

E o poeta
Não sabe o dia
Nem a hora do dizer
Em sua fantasia, apenas assina
Arlequim.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Às artes

Passo das artes, Sabrina Sanfelice, 2009.

Apaixono-me
Por pequenas artes
Fragmentos
De uma estética sensorial

Nem uma única palavra
Nem ao menos todas
Porque a paixão não é exata
É rompante

Na manhã, suaves acordes
Talvez a música
Teclas de um piano imaginário
No meio das coxas, incessante

À tarde, quente e úmida
Nas cores de um pincel
A força de um papel em branco
Nu e receptivo

E à noite, o findar
Um espetáculo, aplausos
E atrás do palco, descalço
Meu encalistrar

E sempre, elas
Uma a uma, todas
Assim, devagar, de supetão
Palavras, minhas, suas

Poesia, paixão.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A expectativa

"Pessoas", Sabrina Sanfelice, Maceió/AL


O cheiro
Alivia a dor da mortalidade
Abro o armário
E na ausência do ser, olfato

Quero estar perto
Tateio os rastros
Procuro, imploro, propositalmente
Não acho

Invento rostos
Visualmente distorcidos
Na saudade, excitam
Às vezes, confundem

E choro
Numa vala profunda
Na falta, no nada
Só o sabor de sal

Ouço cada passo
O som do beijo
Do compasso do coração
Na boca

Espero, um satori
Na mágica do ser
Que nunca superará
A do será

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Três vezes mulher (Amélia)

Transfiguração feminina, Sabrina Sanfelice, 01-01-14


Há dias em que me pergunto sobre a ingênua felicidade da Amélia. Ouço a roupa da mulata bater na pedra na beira do rio enquanto ensaboa e limpa toda sua tristeza em algo inimaginável como a rotina. E o que mais me incomodou foi observar, ao longo de um dia inteiro, a dedicação de uma galinha com seus pintinhos. Ela respondia aos piados pacientemente, o tempo todo, numa cadência perfeita de quem sabe exatamente o que faz. Guiava as pequeninas aves por todo o terreno, sem qualquer hesitação, como se não tivesse dúvidas sobre o futuro, o qual não a pertencia. (...)

(Trecho do conto "Amélia", do livro NósVósElas, de Sabrina Sanfelice, Editora Patuá)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Oculta vaidade

Espelho, espelho seu. Sabrina Sanfelice. Maceió/AL

Com todo desleixo fingido
Grito, aflita, por dentro
Questiono o tempo todo
Por onde estará minha alma?
Se não dançando num espelho?

É triste, é infelicidade
Mas, por hora, não a vejo
Suspiro, apaixonada
O reflexo, por si só é claro
São outros olhos!

O pior de não se ver
É se ver em dupla
Amarrada a fios de cabelo
Numa expectativa insana
Do meu eu-futuro

Infinitas histórias
Contadas uma a uma
Todas, já sei de cor
Um porvir seguro
Tão esperado, vivido
Condenado à narrativas

Na verdade, em suma
Sou pura expectativa
Restos mortais, esquartejados
Minha própria imaginação
Auto-sina, viver de pouco
E para a mente, muito

E quando desisto de mim
Sucumbida em outro
Pelo alheio que não mais está
Ouso virar as costas
Deixar o simulacro
E já sinto o cheiro

Em passos lerdos, se aproxima
Leio sílaba a sílaba
Meu próprio nome
Em qualquer letreiro
E me condeno a você, um eu
Como o rio a Narciso

domingo, 5 de janeiro de 2014

Tira-teima

Alma no beiral, Sabrina Sanfelice

Deixe-me beber
das águas profundas e infinitas
daquilo que reservas pra amanhã

Porque separar a contragosto
todo amor que transpõe os muros
só por medo de ilusão?

O orgulho dos seus lábios
é facilmente corrompido
pelo sabor latente dos seus olhos úmidos

Deixe-me emaranhar nessas tramas
trazer a tona o cadeado
que destranca sua volúpia

Só pra dizer que eu posso
com licença, eu quero
poder dizer, nos seus ouvidos

Palavras de amor
não daquelas que confundem 
aquelas que perdoam

Deixe-me ser pra você
aquilo que você acredita que sou
bem lá no fundo

Sou aquela que limita
com ponteiros e silêncio
como um cubo de gelo

Mas que por dentro
chora, aflita
por um final feliz

Deixe-me
ou viva-me
intensamente

Mas não me poupe
não me tranque para fora
do seu coração

Seja fiel
ao que proclamas quando ama
tua alma infame, que me acolhe

Dia sim, dia não.

Sabrina Sanfelice