Desejo crucífero, por Sabrina SanfeliceCapítulo IX
Maria Madalena
Em desespero ela fechou os olhos para não ver sua imagem refletida no espelho. As lágrimas que escorriam pela face pálida podiam ser confundidas com as gotas de chuva que caiam fora do carro, vistas do retrovisor lateral. A saliva, confundida com o momento do choro se tornou espessa e amarga, sensação que traduzia uma só palavra: arrependimento.
Foi num desses dias de total vocação aos seus ensaios de piano, seus alunos do Conservatório e a pausa para o chá que ela se deparou com o que podemos chamar de “o dia em que o diabo saiu para passear”. Seu melhor aluno desistiu do curso para aprender guitarra e ela teve que mudar todos os seus planos. Exaustivamente tocou a Sinfonia nº 8 de Dvorák até que seus dedos pediram outra vocação. E, influenciada pelo coisa-ruim que ronda as mentes bem-comportadas, teve seu primeiro impulso: vou tomar um café.
Seu cérebro racional até tentou resistir, de todas as maneiras. Ela não mudava de planos, nunca tomava café, jamais agia por impulso e não costumava ter idéias mirabolantes que alterassem sua rotina. Mas, foi impossível resistir. Quando os “demônios do meio-dia” resolvem sair para corromper a mente de um ser humano, não há quase nada que se possa fazer. Saiu às pressas do Conservatório, desceu as escadarias freneticamente, como se lá embaixo alguém a esperasse com os braços abertos para um abraço.
Envolvida pela fumaça dos charutos, a imagem bucólica dos leitores assíduos e o cheiro de vício que implantava cafeína até pelos poros, Cláudia caminhou sozinha entre as mesas do Sebo da 29 de Março, local preferido de seu namorado Ulisses, mas que hoje era só dela. Fechou os olhos e pensou que aquele dia seria dedicado à sua imaginação. “Vou pensar que sou Ulisses e o que estaria fazendo aqui essa hora”.
Ao abrir os olhos novamente, numa fração de segundos, uma delicada rosa amarela estava posta ao lado de seus dedos entrelaçados. Ela quase riu da brincadeira, mas isso não era permitido pelo seu moralismo exagerado. Quem teria colocado aquilo? Seria um hábito estranho das cafeterias antigas? Ulisses estaria atrás dela rindo da cena? Seria necessário fechar os olhos para fazê-la desaparecer novamente?
Ela nem precisou de tanto esforço. Ao tocar na planta ainda úmida, notou que o papel que a identificava tinha sido confundido por seus olhos com a toalha branca da mesa. Na surpresa de ver a flor, Cláudia nem notou o bilhete embaixo. Levantou a rosa com pressa e, como todo bom pacto com o demônio, furou o dedo em seu maior espinho. A gota de sangue era o que faltava para selar de vez seu destino daquele dia.
Ai, caramba! Essa doeu! Como vou ensaiar com um dedo infeccionado? Eu nem deveria ter saído de casa hoje. Já vi que não levantei com o pé direito. Sua voz-pensamento foi substituída por uma mais grave que sinestesicamente tocou sua mão machucada por trás de suas costas. "Deixe-me ver esse dedo". Se existe uma coisa que fere mais as mulheres do que a rejeição é serem machucadas por sua ingenuidade. Ninguém espera que algo tão bonito e inofensivo como uma rosa possa fazer tamanho estrago. Mas, nada que o tempo não cicatrize e que uma boa assepsia não evite problemas maiores. Deixe-me cuidar de você, só por hoje.
Cláudia, desnorteada pelos seus impulsos cerebrais que diziam muitas coisas ao mesmo tempo como “quem é esse estranho me tocando”, “alguém pode estar vendo essa cena e confundindo tudo”, “devo ser imperativa em meus princípios ou ser gentil e educada”, ao mesmo tempo em que seus pêlos eriçados pelo sopro da voz que falava perto de sua nuca, diziam deliciosamente “aproxime-se”. Foi seu segundo impulso mefistofélico que a fez dizer “obrigada por me ajudar, sou uma pianista e não posso ter um dedo machucado”.
Essa frase foi só o começo do arrependimento da pobre alma, que pouco a pouco seria profanada. Depois disso veio o café e toda a agilidade da cafeína em aumentar os impulsos e favorecer as conversas, em seguida uma risada um pouco mais relaxada, a indicação de sons e livros, o conhecimento das semelhanças que abriam os canais de atração, um toque sem querer na mão e a desculpa de verificar o dedo machucado e, por fim, a consciência da volúpia.
Saindo da cafeteria como se tivesse acabado de transar com um estranho num banheiro público, Cláudia foi surpreendida por uma forte chuva. Suas roupas de seda que antes eram leves e esvoaçantes grudaram em seu corpo fazendo com que cada centímetro fosse realçado aos olhos alheios. As rendas, o cabelo preso, agora ensopado e a maquiagem escorrida lhe davam o aspecto daquelas amantes em desatino que escolheram uma tarde chuvosa para um suicídio.
Ela quis chegar rapidamente a um ponto de táxi, mas o gentil cavalheiro da cafeteria veio ao seu encontro com o casaco por cima da cabeça, tentando protegê-la da chuva, enquanto não só a desprotegia dos arcanjos que lutam contra o demo, como arrancava aos dentes seus muros altos de concreto chamados de “inconsciência imaculada”. Juntos, quase abraçados por uma névoa de curiosidade e volúpia, ficaram na beira da rua a esperar um táxi.
Ela evitava os olhos amendoados, enquanto ele apertava de leve sua cintura na intenção de confortá-la do frio. A tempestade aumentava e o casaco já não era suficiente. Cláudia estava desesperada para que seu anjo da guarda lhe mandasse reforços, mas a legião de seguidores do chifrudo brincavam de roda entre os dois. Atrás deles um único letreiro piscava vermelho e forte: hotel 24 horas. Era chegado o momento da última tentação do deserto.
Correram para dentro do estabelecimento, enfim, protegidos da chuva. Chuva que nesse momento era culpada de todos os pecados do mundo. Começava a escurecer mais cedo por causa do mau tempo e a opção dos dois foi sentar-se num sofá da recepção. Mas, a atendente mal-educada que mascava o mesmo chiclete desde cedo, disse que não era permitido ficar ali sem que pagassem pela hospedagem. O cavalheiro levantou, pagou e voltou com um sorriso dizendo: você não precisa entrar no quarto, se não quiser. Eu já paguei para ficarmos aqui, sem problemas. A não ser que queira se secar e esperar a chuva passar.
Seu cansaço e sua aparência derretida pela água lutavam contra seu senso moral, mas a perigosa frase “o que há de mal nisso”, ganhou a partida dando xeque-mate na mente rigorosa da moça. O tempo, assim como a memória, pode parecer infinito quando se atenta aos detalhes da paixão. Na mente de Cláudia, ficaram os passos macios no carpete verde escuro da escadaria do hotel, que, em quatro pernas construíam o acorde de uma sinfonia deliciosamente amoral.
A parte do diário em que a volúpia se desveste por inteira e o diabo faz um brinde encarando firme os olhos de Deus, foram arrancadas ao som da Ave Maria de Schwartz. Cláudia passou a freqüentar as missas todos os domingos e nunca mais bebeu café em toda sua vida. As únicas coisas que a incomodavam eram o bilhete da flor que nunca leu e o cheiro da paixão que, agora, se assemelhava ao hálito de seu namorado.
Na sua cafeteria preferida, Ulisses, ainda atordoado com a história do livro, senta, pede o de sempre e repousa sua mão sobre uma gota de sangue que manchava um papel ainda úmido pela flor que esteve repousada em sua superfície. Dentro, na primeira dobra, um símbolo da Congregação das Filhas de Caridade Irmãs Canossianas e felicitações sobre a comemoração do dia de Nossa Senhora Desatadora de “Nós”. Dentro, uma frase de apelo religioso ou, para muitos cordeiros perdidos, a palavra da salvação:
“Não vos sobreveio nenhuma tentação, senão humana; mas fiel é Deus, o qual não deixará que sejais tentados acima do que podeis resistir...” (I Coríntios 10:13)