quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A coadjuvante

Interpretando Ulisses, por Sergio Biscaldi

A coadjuvante

Anna visitava sua irmã, Alice, sempre muito tarde da noite. Dizia que era o único momento em que podia conversar com calma, já que seu trabalho era exaustivo e exigia dedicação exclusiva. Chegava com uma echarpe envolvendo o pescoço, o mesmo sapato preto com fivelas desgastadas, um vestido básico que alternava entre preto e vermelho e os cabelos levemente presos. Nunca se notara hálitos ou cheiros estranhos, além dos odores normais de quem ainda não tinha passado por uma ducha merecida.

Anna não falava do que fazia, nem de como tinha sido seu dia. Restringia-se em comentar de suas begônias que nunca duravam mais que duas semanas, dos pelos do gato que a fazia perder os domingos varrendo a casa e dos familiares que nunca podiam visitar na Itália. Às vezes, com muita cautela, falavam de assuntos íntimos como o fato de nunca terem casado ou dos motivos que as faziam não querer homens por perto, com exceções das noites de calor e volúpia nos bailes da adolescência.

Neste dia, Alice não se sentia bem. Estava com uma crise de asma e reclamava que os remédios de hoje não causam o mesmo efeito imediato dos de antigamente. Não parava de tossir. No meio dos acessos de tosse, falava freneticamente. Começou contando como provocava seu vizinho de parede, colocando discos da Nina Simone misturados aos sons de filmes pornográficos. Soltava os gemidos no momento certo para que produzisse uma simulação perfeita. Chegou a derrubar coisas, bater na parede com o corpo, rir alto e estourar champanhes que jogou na pia.

Anna ouvia tudo boquiaberta, mas não interrompia a irmã. Tantos anos falando de begônias, gatos e família e, assim, do nada, resolveu enlouquecer naquela noite. Chegou a pedir para ir ao banheiro e checar o que ela andava tomando. Nada. As bulas deixavam claro que a medicação estava correta e não causava nenhuma alucinação.

O que mais a chocava era que, por mais picantes que as histórias fossem ficando ao longo da noite, menos reais elas pareciam. Nenhuma delas tinha sido vivida realmente e, embora a irmã dissesse sentir os resultados nos olhares alheios, Anna tinha certeza de que isso podia ser ilusão de sua parte. De um modo ou de outro, as encenações de Alice começaram a causar-lhe inveja. Uma pitada de vontade de repetir esses atos compulsivamente, sair pela rua nua, encarnar o capeta.

O calor, que aumentava a cada palavra, como as danças do baile, começava incomodar. Era como se as gotas de suor revelassem a todos suas vontades. Assim como antigamente, ela saiu sem deixar rastros. Alice, que fazia seu primeiro desabafo com a irmã depois de tantos anos de visitas noturnas, não interrompeu a fala. Talvez porque, de certo modo, sua fala não fosse para Anna. Quando terminou, seminua no sofá, foi tomar seu leite com mel e dormiu como um anjo.

Anna seguiu a pé para seu apartamento. No meio do caminho começou a pensar no que nunca tinha contado a Alice. Nunca tinha mencionado o que fazia em seu trabalho. Nunca tinha sequer dividido seu cotidiano, quanto menos suas intimidades, mesmo que se restringissem ao campo dos pensamentos. Chorou de raiva. Chorou porque, aos olhos dela, nunca tinha demonstrado vida. Em seu orgulho, ficou pensando que pelo menos podia trabalhar, ver pessoas, não precisava ficar trancada em casa, vendo a vida passar pela janela, tendo crises de asma e provocando pessoas que nem sabiam de sua existência. Deu um suspiro aliviado por ter uma vida só sua e um trabalho que a transformava em alguém de verdade.

No outro dia, Anna não foi visitar Alice. Nunca mais se viram. Do beiral da janela do apartamento de Alice, lia-se no muro o anúncio de uma peça de teatro. Nas letras miúdas que mencionavam o elenco, o nome de Anna aparecia no final, escrito apenas com um N.

terça-feira, 31 de março de 2009

Surpreenda-me, se for capaz

Detalhes, por eles mesmos

Surpreenda-me, se for capaz


Quando Maria Helena conheceu Jorge, o que mais fazia era provocá-lo. Levantava os cabelos entre os dedos e deixava a nuca sutilmente nua, se não fosse por alguns fios rebeldes para mostrar sua personalidade única e sua capacidade de hipnotizá-lo com detalhes.

Depois de inúmeros encontros, Jorge ainda esperava alguma surpresa de Maria Helena, dos pequenos detalhes em seus longos cabelos a alguma atitude marcante como seus vícios de linguagem temporários, que elegiam uma palavra como se não existissem mais sinônimos.

Quando ele fechava os olhos, na solidão de seu quarto escuro, conseguia visualizá-la perfeitamente com seus adoráveis defeitos e grandes atributos. Casaria com ela só para observar, durante toda sua vida, as mudanças constantes que lhe permitiam a cada dia uma história, uma lembrança e, conseqüentemente, páginas e páginas de um livro.

E casaram-se. Maria Helena continuou representando seus personagens, mas Jorge foi ficando cada vez mais difícil de ser surpreendido. Como vivia nas realidades que acreditava serem melhores para a formação de seu romance, esqueceu de olhar para ela como ser humano, colocando-a apenas no plano eterno dos personagens que, embora tenham múltiplas personalidades, nunca mudam.

Escrevia, escrevia compulsivamente rumo ao capítulo final. Maria Helena ainda falava, comia, trabalhava, mas ele não mais a via. Sua fixação era nas últimas linhas que compunham a vida de seu personagem principal.

Poucos dias antes de entregar o romance a editora, Jorge não sabia ainda se faria um final feliz ou uma tragédia. Decidiu-se pelo primeiro porque as vendas seriam consideravelmente maiores. Queria que ela surpreendesse do inicio ao fim, não acompanhando a maioria dos dramas literários. Entregou o livro e voltou para casa radiante pela espera da noite de autógrafos.

Ao pisar na soleira da porta já sentia o cheiro gostoso do bolo de fubá com sementes de erva-doce feito por Maria Helena. A casa, ainda com as luzes apagadas, guardava as impressões da noite anterior, quando suas filhas brincavam na biblioteca. Tropeçou nas correspondências que se acumulavam aos montes em seus pés. O gato, magro, de olhos esbugalhados veio ao seu encontro implorando por comida. A sala estava uma bagunça.

Entrou chamando o nome dela para que desse um jeito naquilo tudo. No quarto, a cama por fazer, cigarros e cinzeiros espalhados, sujos. Na cozinha, de onde vinha o cheiro do bolo, a luz também estava apagada. Jorge recuou, tentou se lembrar se a deixou dormindo ou se estaria viajando. Não lembra, só lembra das passagens do livro. O telefone toca. Sua memória é interrompida pelo presente. Atende.

- Pai? É você?
- Sim, sou eu. – responde no piloto automático.
- Preciso do dinheiro da faculdade.
- Nossa! Já é dia 10? Vou depositar.
- Não, não é dia 10. É dia 25. Faz tempo que estou tentando falar com você. Onde esteve?
- Desculpe, filha. Estava correndo atrás do livro. O lançamento será em um mês. Compre um vestido novo. Mas, porque não pegou o dinheiro da escola com sua mãe?

Fez-se silêncio por um momento e ela respondeu de sopetão:
- Não pedi porque os mortos não fazem mais parte da sociedade capitalista. Pai, você está doente? Esse livro te faz mal. Não, melhor, essa sua mania de viver num mundo fictício te faz mal. Não vou ao lançamento. Esquece o dinheiro. Tchau.

Jorge desligou calmamente o telefone e sentou em sua escrivaninha. Pela primeira vez abriu seu email e mandou um recado ao editor:

Caro editor,
Preciso de um favor. Decidi mudar o último capítulo do livro. É um caso de vida ou morte. Penso que as tragédias são peças fundamentais na literatura. Deixemos as surpresas e finais felizes para a nossa doce realidade.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Cara ou Coroa

Siamesas, por Sabrina Sanfelice (auto-retrato)


Cara ou Coroa

Acaso. Essa era a palavra mais usada por Emília para justificar seus periódicos abandonos. Dona da razão, mas com imenso bom humor, ela conseguia ter ao lado gregos e troianos e, quando enjoava, consultava novamente os livros de geografia com os olhos vendados. Tudo era rotativo para a moça de sorriso fácil. Um dia acordava tão adorável que era capaz de doar para caridade seu vestido mais caro e bonito. Bondade? Não. Emília não era capaz nem mesmo de fixar seu gênero. Suas atitudes eram baseadas somente na vulnerabilidade natural de seu ser, quase como num jogo de cara ou coroa.

Quando nasceu, sua mãe demorou dois dias para dar-lhe um nome. Ficou entre Caterina e Giulia, mas escolheu Emília porque, na dúvida, fechou os olhos e pensou: “o primeiro deles que vier em minha mente será o nome de minha filha”. Como na TV de seu quarto passava o Sítio do Pica-Pau Amarelo, teve, por (auto)honra, que colocar o nome da menina de Emília quando ouviu Narizinho gritando para a boneca de pano e o nome que veio a mente não conseguiu ser nenhum dos outros dois.

Desde então, Emília também fazia escolhas aleatórias. Rodopiava nas lojas de brinquedos e lançava o olhar para o lado que parava o giro, gritando: é este mãe! Quero este jogo de panelinhas! Só que essa história de deixar as escolhas para o acaso, frustrava um pouco a menina. Ao chegar em casa, começava a notar que seu pai poderia ter comprado o jogo mais caro, como o de suas amigas, mas por causa dessa bagunça que ela criou com suas “escolhas não conscientes” fazia com que perdesse a personalidade.

Como reverter isso tudo sem deixar que as pessoas pensassem que ela desistiu? Depois de passar a tarde toda nesse impasse, Emília teve uma idéia. Fingiria que tudo era uma questão do destino, mas, de certa forma, com uma boa pitada de sorte. Faria como os jogadores de baralho que dizem estar cercados de boa-venturança, mas não mostram a carta debaixo da manga. Agora, ao rodopiar pela loja de brinquedos, Emília aumentava a velocidade para que ninguém percebesse que, sutilmente, ela abria os olhos e espiava onde queria parar.

E foi assim com a faculdade, os cursos, namorados, carros e amigos. Para não escolher, ela culpava a probabilidade. “Puxa, que pena que nosso namoro não deu certo. Mas, entenda que a culpa não é minha. Não fui eu quem escolhi”. Assim, seu bom humor era invejável. Ela não tinha culpa de nada, era uma pobre coitada que se sujeitava às vezes à sorte, às vezes ao azar. Limitava-se a encarar o destino que a vida lhe propunha e, como todos os inocentes, ser feliz.

Um dia, jantando com seu recém-namorado, Hasard, o moço mais bonito de toda a cidade, ouviu a tão sonhada proposta de casamento. Emília queria muito que ele fizesse o pedido, mas não podia demonstrar que, aceitar, era escolha sua. Propôs que eles dessem uma volta a pé pelas ruas de Paris e parassem num lugar reservado para que ela pudesse rodopiar e, como na loja de brinquedos, onde parasse seria sua escolha. No vazio, não casava. Se abrisse os olhos e o visse na frente, seriam felizes para sempre.

Ansiosa, Emília sorria de orelha a orelha pensando na felicidade que seria quando, ao espiar pelo canto do olho direito, parasse na frente de Hasard. Fechou os olhos, o moço se posicionou e ela rodou freneticamente. A camisa branca podia ser vista mesmo com a menor abertura dos olhos. Parou devagar e olhou. Quando o viu em sua frente, abriu os braços num impulso e pulou no colo de seu “noivo”.

Na véspera do casamento, a campainha tocou. Eram flores, de Hasard, claro. Num cartão bonito, estava escrito: “você espiou”. Embora um pouco incomodada pelo fato de ter que admitir que se casaria por vontade própria, sabia que ele era o homem de sua vida, achando a brincadeira engraçadinha. Era sua primeira decisão consciente e ela tinha gostado de como se sentiu.

No dia seguinte, Hasard não apareceu para casar.

Obs: O nome Hasard (francês) tem um significado interessante... (para quem quiser pesquisar)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

A sentença

Homenagem a Oscar Wild, por Sabrina Sanfelice

A sentença

O bar abria às 21h, mas a falta do que fazer era o motivo dela esperar na chuva por um copo de conhaque e um cantinho para observar as pessoas. Depois da morte de quase todos os familiares doentes, sobrava tempo para essa mulher de 30 e poucos anos viver, ou melhor, observar a vida passar.

Ela tinha tantas pensões acumuladas dos entes que cuidou até o fim que não precisava trabalhar. Um apartamento no centro da cidade, prateleiras de vinis e livros velhos, um gato que herdou do tio Cosmo e tempo de sobra resumiam a vida de Giulia, conhecida, mas atualmente só pelas almas dos mortos, como Lola.

O bar era daqueles antigos, com tradicionais bolinhos de bacalhau, lingüiças e cerveja com rótulos velhos, que foi transformado em reduto de jovens intelectuais que gostam de praticar a mesma boemia de anos pelos quais não passaram. Bossa Nova, Chorinho, Divas do Jazz e o bom e velho Rock’n roll completavam a descrição do local. Numa mesa, no canto mais espremido do bar ficava Lola, com o mesmo copo de conhaque das 21h até o fechamento.

Lola não era de se jogar fora, mas de tanto se dedicar ao bem-estar dos outros passou a ser invisível em sua função como mulher. Era como se o fato de não ter vivido socialmente fazia com que não pertencesse aquele tempo, sendo aceita apenas no único mundo ao qual sempre esteve: dos esquecidos, que sentam e esperam a morte chegar.

Mas, um filme da TV fez com que resolvesse testar o mundo dos vivos, dos jovens, da beleza, do presente, dos que esperam o amanhã com o mesmo vigor que vivem o hoje. E o bar da esquina poderia ser o começo de qualquer expectativa. No início ela só entrava, espiava, sentava por minutos e ia embora. Depois, passou a beber um conhaque, dose suficiente para fazê-la rir sozinha e, por fim, freqüenta todos os dias e espera até que o último cliente passe pela porta.

O que Lola mais gosta de fazer é ouvir pedaços de histórias das quais ela não conhece o começo e nunca fica sabendo do fim. No fim da noite, ao chegar em casa, ela escreve todos esses diálogos detalhadamente e, numa brincadeira quase infantil, junta pedaços de textos sem relação nenhuma, une vidas que nunca se encontraram, faz com que a amante de um senhor de 70 anos que bebe cachaça seja, apenas em sua imaginação, a estudante mais cobiçada da turma de Direito.

Seus textos não têm função nenhuma, não saem da cabeceira de sua cama, não são lidos por ninguém, mas são para ela como os familiares queridos que cuidou: pedaços da história de alguém que são saboreados como se fossem seus. Afinal, quem não tem vida, alimenta-se de quê? É só observar as pessoas que estão com tédio falando o dia todo dos outros e esquecendo que a vida está passando. Por isso, Lola não é diferente. Não pode ser considerada uma pobre coitada que não tem vida própria. Tem muita gente espalhada nesse mundo que acha que tem vida, enquanto não passa de alguém que ainda espera viver.

O melhor de ser assim é não precisar criar expectativas, não depender de um sim ou não, sucumbir por um olhar, beber para esquecer. É estar na platéia o tempo todo, sentir tudo o que é visto no palco e, ao ficar de pé e aplaudir, lembrar de que são todos atores e que aquela não é sua história, aqueles não são seus sentimentos. É apenas o fruto de sua imaginação interagindo com a idéia dos outros.

Mas, a vida, aquela de verdade a qual você é obrigado a passar até o fim, aquela que você sente o ar entrando e saindo pelos pulmões e, quando tapa o nariz com os dedos, sente o quanto é frágil e medroso, essa não perdoa. Ela vai passando, atropelando como um caminhão que perde o freio na ladeira e, querendo ou não, você está ali, vai ter que encarar uma hora ou outra. Só que Lola ainda não sabia disso. Ela conhecia até mesmo a pior dor de todas, considerada a mais cruel, a da perda, mas mal sabia que o mestre Oscar Wilde estava certo quando dizia: “O mistério do amor é maior do que o mistério da morte”.

Foi naquela mesma noite chuvosa. Sabe aqueles dias cinzas quando entes queridos são enterrados? Quando tudo conspira para que você não saia de casa porque algum acidente te espera na esquina? Quando, depois do acontecido alguém solta aquela famosa frase de que o destino é certo e para a morte não tem hora? Pois é. Pobre menina, mal sabia de nada.

Foi rápido, bem rápido. O bar abriu, Lola ameaçou atravessar a rua. O sinal abriu e ela deu os primeiros passos. O freio do carro não estava bom e a rua de paralelepípedos molhados fez o veículo deslizar como sabão. Ela fechou os olhos, apertou fundo e abriu de novo. Uma imensidão azul se espalhou em sua frente, um pouco embaçada ainda, como se visse por detrás de um pedaço de vidro. Tudo se tornou silencioso e calmo, mas o coração pulsava a mil por hora para saber o que era tudo aquilo.

Antes de dar o último suspiro, ouviu o que seria sua última sentença, aquela definitiva que todos escutam nesses momentos: “moça, desculpe se te assustei. Você está bem? Está indo para casa? É que com essa chuva toda achei que precisasse de uma carona. Faz tempo que te observo no bar, mas ainda nem sei teu nome”.

Lola acabara de viver.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

(Um parêntese, por favor)

Parêntese, por Gisele Sanfelice

(Um parêntese, por favor)

Detesto mudar meus projetos iniciais. Mas, meus contos resolveram entrar de férias em janeiro para darem espaço a mudanças que estão acontecendo em minha vida. Confesso: não são poucas. Tanto que eu jamais usaria esse espaço com tanta intimidade para me expor. Quando disse para meu psiquiatra que tinha uma publicação de contos para não me expor ele disse: bem se vê que a maioria das pessoas que escrevem não se expõe. Sorte a sua ter esse privilégio. Eu, mero mortal, não consigo ser tão imparcial em minhas entrelinhas.

Na verdade, escritores são todos fingidos. Sentem a dor alheia, tem a memória maior que tudo que só perde para o ego que, vira e mexe está lá, refletido nas palavras. E, remexendo em meus escritos mais antigos, desde a adolescência, percebi como a emoção da própria vida me fez criar com a literatura uma fuga sem volta para o mundo dos sonhos onde tudo é possível, inclusive não me expor, publicando contos que um incontável número de pessoas pode ler.

Então, tive medo. A minha exposição é pequena perto da minha responsabilidade. Se eu descobri que não sou Deus, não sou super-herói, não tinha nem sequer consciência da minha própria vida destacada em entrelinhas e ainda por cima sofro do mesmo mal de todos os escritores, porque eu ainda escrevo? Eu posso falar alguma besteira, querer compartilhar algo que um ser humano use como base, como fórmula mágica. E meus personagens? Eu sou parte deles ou eles fazem parte da minha vida?

Minhas indagações só conseguem ser substituídas por detalhes sutis como alguém que chega para tomar um café e traz um pacote na mão.

- Querida, sabe o que tenho aqui?
- Não, nem imagino. O que é? Um presente pra mim?
- Não (risos). Um presente pra mim. É a primeira versão oficial do seu livro. Será publicado.

Minhas mãos trêmulas seguraram o pacote e fito o homem que, em instantes, anunciará a resposta de todas as minhas questões.

- Que cara é essa? Parabéns! Vamos tomar alguma coisa para comemorar. Brindemos com café mesmo, mas brindemos!
- Obrigada, Dear. Acredita que eu estava quase desistindo dessa publicação há minutos?
- Acredito. Sempre achei que você escrevia por impulso, como tudo em você.
- É mesmo? Pensou isso por algum motivo?
- Não, mas por um raciocínio lógico. As pessoas só fazem alguma coisa por impulso por dois motivos: ou porque não sabem o que estão fazendo ou porque tem certeza absoluta do que fazem. E você, cara mia, tem os dois motivos. Só não esclareceu ainda dentro de você que, ter toda essa sensibilidade não é uma questão de vaidade, mas de necessidade. O escritor não é aquele que chora conosco, ele não precisa saber quem chorou ou não ao ler suas palavras. Percebe como é algo necessário?
- Talvez.
- Pense. Por que você come? Por que dorme? Por necessidade. Mas, se alguém te dissesse que enquanto você come e dorme está ajudando alguém a resolver questões existenciais, você pararia de fazer isso por causa da responsabilidade?
- Não, não poderia, morreria.
- Pois é. Se todos os escritores pararem de escrever, a humanidade morre. Isso assusta um pouco. Mas, eles continuarão pensando que, se pararem de escrever, quem morre são eles mesmos. O piolho continua sugando o sangue da cabeça sem pensar nas conseqüências para sua própria existência se o dono da cuca morrer. Não importa se alguém vai ler o que você escreve, mas você precisa fazer isso.
- Mas, dessa forma eu me ausento de qualquer responsabilidade. Só estou sobrevivendo!
- Não falo que o ego dos escritores é uma coisa enorme? Que prepotência a sua em achar que algum dia você mudou a vida de alguém. Você só o lembrou sobre alguma possibilidade que ele já sabia. Melhor: uma possibilidade que você roubou de alguém ou de você mesma. Sua ladra de sentimentos!
- Acho que já consigo brindar mais tranqüila!
- Faz um favor pra mim antes de brindarmos? Autografa essa versão e me dá de presente?
- Claro!

“Dedico a primeira versão de meu livro ao homem que me ensinou a brindar. Que eu continue brindando minhas necessidades básicas para que, mesmo sem pão, eu nunca morra de fome e, por um mero acaso, preserve a humanidade”

domingo, 14 de dezembro de 2008

O sono do ébrio

Saudade do futuro, por Sabrina Sanfelice (2005)

Capitulo X

O sono do ébrio

Embriagado. Inebriado pela ausência da razão. Era assim que ele estava se sentindo ao folhear a segunda página de um livro em branco. As lágrimas escorriam pela face do sujeito moribundo ao contar, com emoção e perturbação, sua experiência com aquele que seria não só o objeto de estudo da vida de Ulisses, mas atualmente e para todo o sempre, sua razão de viver.

Antonio era um homem de cinqüenta e poucos anos aposentado por invalidez. Alguns diziam que tinha mal de Alzheimer, mas a enfermeira da Casa de Repouso jurava que era loucura pura. Dizia pausadamente cochichando: “no começo eu até pensei que era tudo fingimento, mas depois de anos eu tive a certeza de que ele não bate bem dos pinos”.

Ulisses tinha percorrido quilômetros até chegar naquele local no cafundó do Judas para conhecer a primeira pista verdadeira das muitas pelas quais seguiu nos últimos tempos e que poderia levá-lo a ter contato real com seu “livro”. Ele quase perdeu a vontade quando teve que dormir em redes, comer sentado no chão de barro, tomar água suja de poço numa caneca de alumínio usada por mais de cinco pessoas no mesmo dia.

Mas, a força que movia sua busca já não era mais a mesma que a conquistou no começo. De curiosidade e mistério, há tempos que aquilo tudo já tinha passado pelo âmbito do irracional, da fuga da única realidade que ele poderia usufruir, de tudo que ele tinha medo de deixar ou não tinha coragem suficiente para mudar para, finalmente, se tornar um assunto ligado ao ego. Quando se perde tudo, ainda existe um elemento fundamental para completar a total perda da essência e da dignidade, chamado orgulho.

“Não existe busca mais medíocre do que aquela que é manipulada pelo orgulho. O orgulho em vencer uma guerra faz com que sejamos indignos da vitória. Competir é para os fracos. Os fortes estão interessados em complementar, em acrescentar e, enquanto os competidores sangram em busca de um troféu invisível, o sábio está abaixado no ringue da vida, recolhendo todos os pertences e o sulco que de vida de todos aqueles meros mortais. A sabedoria não morre. Ela perambula pelo universo através de portas que só podem ser acessadas por caminhos não convencionais”.

Isso está escrito no livro, Antonio? Por que você ficou com essa parte em sua mente? Por favor, repita os detalhes desta composição para que eu consiga captar tudo aquilo que preciso para completar minha busca. Eu preciso encontrar esse livro e absorver, assim como você, conhecimentos que ainda não domino, mas que atormentam minha mente pedindo passagem.

Você ainda está bêbado, meu caro amigo. Não se pode beber da fonte do conhecimento quando manipulamos nossa consciência com entorpecentes.

Eu? Bêbado? Você está louco? Eu não coloquei uma gota sequer de álcool na boca. Estou tão sóbrio como uma criança de quatro anos.

Primeiro erro. Quem disse que uma criança de quatro anos tem a opção de estar sóbria? Elas não precisam entorpecer a mente porque a realidade que enxergam está longe de ser interpretada. Elas consomem e abusam de um elemento que perdemos e que, sem ele, não conseguimos chegar a lugar nenhum: a inocência. A inocência e a humildade andam de mãos dadas.

Bom, o que eu fiz foi somente usar uma metáfora. Usei a frase para tentar te dizer que estou sóbrio, só isso.

Segundo erro. Sobriedade e embriaguez não são antônimos. A moderação da sobriedade me enoja. Ela é tão nojenta quanto à moral que a criou. A embriaguez pode ser um estado de entorpecimento temporário, mas ainda sim é mais digna do que a sobriedade. Portanto, eu ainda achava você melhor bêbado. Espero que não tente me convencer de sua sobriedade e só volte aqui quando souber o que te trouxe até mim. Antes disso, serei para você como um livro com as páginas em branco:

“A frustração de ver as folhas em branco não será maior do que o desespero de ter que preenchê-las com suas próprias mãos, criando assim um livro no qual você é autor e personagem. Um livro com o qual temos que lidar com a culpa e a responsabilidade de ser quem somos dos dois lados, de todos os lados, de dentro e de fora, do racional e do irracional. Uma história na qual não existem ventríloquos, leis, moral ou imposição. Estamos escrevendo as páginas de nossas vidas, na qual a tinta que borra o papel é vermelha escarlate... e o ponto final é nosso último suspiro”.

Os olhos de Ulisses se encheram de lágrima porque, talvez ali, com aquele moribundo, num momento tão simples, com o cheiro fétido da cama de um lugar de ninguém, ele tenha começado a entender o que estava buscando.
Abra seus olhos Ulisses. Abra seus olhos, disse Antonio.

Estão abertos, caro amigo, mas minhas pupilas ainda não se acostumaram com a luz.


quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Maria Madalena

Desejo crucífero, por Sabrina Sanfelice

Capítulo IX

Maria Madalena

Em desespero ela fechou os olhos para não ver sua imagem refletida no espelho. As lágrimas que escorriam pela face pálida podiam ser confundidas com as gotas de chuva que caiam fora do carro, vistas do retrovisor lateral. A saliva, confundida com o momento do choro se tornou espessa e amarga, sensação que traduzia uma só palavra: arrependimento.

Foi num desses dias de total vocação aos seus ensaios de piano, seus alunos do Conservatório e a pausa para o chá que ela se deparou com o que podemos chamar de “o dia em que o diabo saiu para passear”. Seu melhor aluno desistiu do curso para aprender guitarra e ela teve que mudar todos os seus planos. Exaustivamente tocou a Sinfonia nº 8 de Dvorák até que seus dedos pediram outra vocação. E, influenciada pelo coisa-ruim que ronda as mentes bem-comportadas, teve seu primeiro impulso: vou tomar um café.

Seu cérebro racional até tentou resistir, de todas as maneiras. Ela não mudava de planos, nunca tomava café, jamais agia por impulso e não costumava ter idéias mirabolantes que alterassem sua rotina. Mas, foi impossível resistir. Quando os “demônios do meio-dia” resolvem sair para corromper a mente de um ser humano, não há quase nada que se possa fazer. Saiu às pressas do Conservatório, desceu as escadarias freneticamente, como se lá embaixo alguém a esperasse com os braços abertos para um abraço.

Envolvida pela fumaça dos charutos, a imagem bucólica dos leitores assíduos e o cheiro de vício que implantava cafeína até pelos poros, Cláudia caminhou sozinha entre as mesas do Sebo da 29 de Março, local preferido de seu namorado Ulisses, mas que hoje era só dela. Fechou os olhos e pensou que aquele dia seria dedicado à sua imaginação. “Vou pensar que sou Ulisses e o que estaria fazendo aqui essa hora”.

Ao abrir os olhos novamente, numa fração de segundos, uma delicada rosa amarela estava posta ao lado de seus dedos entrelaçados. Ela quase riu da brincadeira, mas isso não era permitido pelo seu moralismo exagerado. Quem teria colocado aquilo? Seria um hábito estranho das cafeterias antigas? Ulisses estaria atrás dela rindo da cena? Seria necessário fechar os olhos para fazê-la desaparecer novamente?

Ela nem precisou de tanto esforço. Ao tocar na planta ainda úmida, notou que o papel que a identificava tinha sido confundido por seus olhos com a toalha branca da mesa. Na surpresa de ver a flor, Cláudia nem notou o bilhete embaixo. Levantou a rosa com pressa e, como todo bom pacto com o demônio, furou o dedo em seu maior espinho. A gota de sangue era o que faltava para selar de vez seu destino daquele dia.

Ai, caramba! Essa doeu! Como vou ensaiar com um dedo infeccionado? Eu nem deveria ter saído de casa hoje. Já vi que não levantei com o pé direito. Sua voz-pensamento foi substituída por uma mais grave que sinestesicamente tocou sua mão machucada por trás de suas costas. "Deixe-me ver esse dedo". Se existe uma coisa que fere mais as mulheres do que a rejeição é serem machucadas por sua ingenuidade. Ninguém espera que algo tão bonito e inofensivo como uma rosa possa fazer tamanho estrago. Mas, nada que o tempo não cicatrize e que uma boa assepsia não evite problemas maiores. Deixe-me cuidar de você, só por hoje.

Cláudia, desnorteada pelos seus impulsos cerebrais que diziam muitas coisas ao mesmo tempo como “quem é esse estranho me tocando”, “alguém pode estar vendo essa cena e confundindo tudo”, “devo ser imperativa em meus princípios ou ser gentil e educada”, ao mesmo tempo em que seus pêlos eriçados pelo sopro da voz que falava perto de sua nuca, diziam deliciosamente “aproxime-se”. Foi seu segundo impulso mefistofélico que a fez dizer “obrigada por me ajudar, sou uma pianista e não posso ter um dedo machucado”.

Essa frase foi só o começo do arrependimento da pobre alma, que pouco a pouco seria profanada. Depois disso veio o café e toda a agilidade da cafeína em aumentar os impulsos e favorecer as conversas, em seguida uma risada um pouco mais relaxada, a indicação de sons e livros, o conhecimento das semelhanças que abriam os canais de atração, um toque sem querer na mão e a desculpa de verificar o dedo machucado e, por fim, a consciência da volúpia.

Saindo da cafeteria como se tivesse acabado de transar com um estranho num banheiro público, Cláudia foi surpreendida por uma forte chuva. Suas roupas de seda que antes eram leves e esvoaçantes grudaram em seu corpo fazendo com que cada centímetro fosse realçado aos olhos alheios. As rendas, o cabelo preso, agora ensopado e a maquiagem escorrida lhe davam o aspecto daquelas amantes em desatino que escolheram uma tarde chuvosa para um suicídio.

Ela quis chegar rapidamente a um ponto de táxi, mas o gentil cavalheiro da cafeteria veio ao seu encontro com o casaco por cima da cabeça, tentando protegê-la da chuva, enquanto não só a desprotegia dos arcanjos que lutam contra o demo, como arrancava aos dentes seus muros altos de concreto chamados de “inconsciência imaculada”. Juntos, quase abraçados por uma névoa de curiosidade e volúpia, ficaram na beira da rua a esperar um táxi.

Ela evitava os olhos amendoados, enquanto ele apertava de leve sua cintura na intenção de confortá-la do frio. A tempestade aumentava e o casaco já não era suficiente. Cláudia estava desesperada para que seu anjo da guarda lhe mandasse reforços, mas a legião de seguidores do chifrudo brincavam de roda entre os dois. Atrás deles um único letreiro piscava vermelho e forte: hotel 24 horas. Era chegado o momento da última tentação do deserto.

Correram para dentro do estabelecimento, enfim, protegidos da chuva. Chuva que nesse momento era culpada de todos os pecados do mundo. Começava a escurecer mais cedo por causa do mau tempo e a opção dos dois foi sentar-se num sofá da recepção. Mas, a atendente mal-educada que mascava o mesmo chiclete desde cedo, disse que não era permitido ficar ali sem que pagassem pela hospedagem. O cavalheiro levantou, pagou e voltou com um sorriso dizendo: você não precisa entrar no quarto, se não quiser. Eu já paguei para ficarmos aqui, sem problemas. A não ser que queira se secar e esperar a chuva passar.

Seu cansaço e sua aparência derretida pela água lutavam contra seu senso moral, mas a perigosa frase “o que há de mal nisso”, ganhou a partida dando xeque-mate na mente rigorosa da moça. O tempo, assim como a memória, pode parecer infinito quando se atenta aos detalhes da paixão. Na mente de Cláudia, ficaram os passos macios no carpete verde escuro da escadaria do hotel, que, em quatro pernas construíam o acorde de uma sinfonia deliciosamente amoral.

A parte do diário em que a volúpia se desveste por inteira e o diabo faz um brinde encarando firme os olhos de Deus, foram arrancadas ao som da Ave Maria de Schwartz. Cláudia passou a freqüentar as missas todos os domingos e nunca mais bebeu café em toda sua vida. As únicas coisas que a incomodavam eram o bilhete da flor que nunca leu e o cheiro da paixão que, agora, se assemelhava ao hálito de seu namorado.

Na sua cafeteria preferida, Ulisses, ainda atordoado com a história do livro, senta, pede o de sempre e repousa sua mão sobre uma gota de sangue que manchava um papel ainda úmido pela flor que esteve repousada em sua superfície. Dentro, na primeira dobra, um símbolo da Congregação das Filhas de Caridade Irmãs Canossianas e felicitações sobre a comemoração do dia de Nossa Senhora Desatadora de “Nós”. Dentro, uma frase de apelo religioso ou, para muitos cordeiros perdidos, a palavra da salvação:

“Não vos sobreveio nenhuma tentação, senão humana; mas fiel é Deus
, o qual não deixará que sejais tentados acima do que podeis resistir...” (I Coríntios 10:13)